INSP SPECIAL AWARD FOR EXTERNAL PRESS: CAIS de Abrigo (Diario de Noticas, Portugal)
Gabriela OliveiraJune 25, 2008
Em risco...
E se de repente perdesse o emprego, não conseguisse trabalho, ficasse sem crédito, sem casa, sem amigos ou família a quem pudesse recorrer? E se as forças faltassem, se achasse que por mais que tentasse nada daria certo. Ou se a depressão, o álcool ou outras dependências se apoderassem de si ou dos «seus», e o conduzissem a este cenário? Sem dinheiro, sem tecto, sem ânimo, sem eira nem beira. Talvez, imaginando-se no lugar do outro, as histórias de vida que percorrem estas páginas não lhe pareçam nem tão estranhas nem tão longínquas.
«Por vezes, basta um elo quebrar-se, uma peça da engrenagem soltar-se, para que as nossas vidas sigam um rumo completamente diferente», comenta Henrique Pinto, director da associação Cais. «Quase sem saber como, muitas pessoas vêem-se em situações desesperadas, sem conseguir garantir as necessidades básicas: alimentação, habitação, acesso aos serviços de saúde. Com a instabilidade que se vive hoje, esse risco é cada vez maior. Os empregos são precários, há cada vez menos vínculos contratuais, as vidas não se podem projectar no futuro, é uma realidade que vai desgastando, desmotivando...» O desemprego é uma das causas explicativas da pobreza, mas entre a população pobre há cada vez mais pessoas com emprego, cujos salários são insuficiente para o sustento da família. «A pobreza exposta na rua é mais visível, mais chocante, mas a que se esconde dentro das paredes de casa não é menos angustiante.»
Os números do Instituto Nacional de Estatística, divulgados recentemente, são preocupantes. O risco de pobreza atinge quase dois milhões de portugueses. Cerca de um quinto da população vivia em 2005 com menos de 360 euros por mês, sendo os idosos e as famílias numerosas os mais afectados. Face à União Europeia, Portugal detém uma das taxas de pobreza mais elevadas e é o país onde existe um maior fosso entre pobres e ricos. A distribuição de rendimentos acentua uma desigualdade crescente: «As estatísticas mostram que a classe média está a desaparecer.»
Vidas desligadas
Não se sabe ao certo quantas pessoas vivem na rua, quantos são os utilizadores dos centros de acolhimento, quantos pernoitam aqui e ali por não terem como pagar um tecto. «O levantamento da realidade dos sem-abrigo nunca foi feito até hoje», lamenta Henrique Pinto. Sabe-se que são na sua maioria homens e que concentram-se, sobretudo, nas cidades de Lisboa, Porto e Setúbal. «Nos últimos anos, o fenómeno tem-se estendido também a cidades do interior do país, onde o problema do desemprego e da pobreza começa a ser gritante». As causas podem ser múltiplas, mas à cabeça encontra-se a precariedade do emprego, problemas ligados às dependências, a perda de laços, o isolamento, doenças do foro mental. «Uma situação que no início é encarada como passageira, pode arrastar-se penosamente se não for dado o apoio certo, no momento certo».
«Sem-abrigo não é um estado de ser, é um percalço», lembra Arnaldo Spatz, frequentador de um centro de acolhimento e vendedor da revista Cais. Ninguém acorda um dia e diz quero ser pobre, quero andar por aí de estômago vazio e mão estendida. A verdade, é que a ideia de pobreza nos incomoda e a mendicidade nos repugna. Viramos a cara para não ver, contornamos o passeio se for preciso, preferimos pensar que é uma escolha, que o que quer que se faça não adianta. «Se estão na rua, é porque querem», «se são pobres, é porque não se esforçam», «se não têm o que comer, que trabalhem», «se querem pedir, que voltem para o país deles»! Existem inúmeros estereótipos que ligam os sem-abrigo a situações de ilegalidade, marginalidade e demência, o que reforça a exclusão e a dificuldade de serem de novo aceites. «É preciso olhar estas pessoas à mesma altura, olhos nos olhos». Trocar o vazio pela dignidade.
Embarque para onde?
Cais, lugar de embarque e desembarque, lugar de passagem, de chegada e de partida. A associação Cais pretende ser isso mesmo, um ponto de encontro, «um local temporário onde quem chega possa partir mais apetrechado e preparado para seguir o seu rumo». Começou por ser um projecto editorial com fins solidários, nascido em 1994, com a publicação mensal da revista Cais, que é vendida na rua por pessoas em situação de sem-abrigo, sem lar ou em risco de serem despejadas. «A venda da revista é, para muitos, o único recurso, mas a ideia sempre foi fazer da revista um trampolim para encontrarem de novo trabalho». Hoje não são mais do que sessenta os vendedores credenciados da Cais em todo o país. A revista tem um preço de capa de dois euros, setenta por cento fica com o vendedor. A noção de que muito mais tinha de ser feito, que era necessário um contacto mais estreito e uma maior supervisão, levou à expansão da associação, apesar da «amargura financeira». Nos últimos dois anos, cerca de quinhentas pessoas passaram pelos Centros Cais de Lisboa e Porto. «É dado acompanhamento psicossocial, formação na área da informática, ensino de português, actividades desportivas, artísticas, tentamos reforçar a auto-estima, desenvolver competências e ajudar a encontrar um projecto de vida.»
Porque acreditam que ninguém é descartável, que todos têm um lugar na sociedade, que a pobreza deve ser debatida e combatida, a Cais actua em várias frentes. Organiza congressos, publica ensaios, instituiu um prémio para «celebrar a solidariedade», promove torneios de futebol de rua, estabelece parcerias com várias empresas. «Há uma apatia crónica dos portugueses face a causas sociais, mas é preciso que todos se envolvam nesta luta. A pobreza é um problema de todos e tem de ser resolvido por todos», garante Henrique Pinto. «O que eu gostaria era que se inventasse um processo automático de combate à pobreza cujos resultados fossem visíveis pelo simples facto de o processo estar a funcionar.» Como essa «máquina» não existe, todos os esforços são poucos e os resultados nem sempre são duradouros.
«Sejamos gratuitos por um dia»
Hoje é o último dia do «Pão de Todos», uma iniciativa da Cais que decorre desde segunda-feira na zona da Alameda, em Lisboa. Pão quente a sair do forno grátis para quem passa junto à Fonte Luminosa. Foi instalada «uma panificadora com capacidade para produzir quarenta mil pães por dia que distribuímos gratuitamente para evocar esse bem mais básico a que todos deviam ter acesso». Pão como alimento, sustento, dádiva, partilha e comunhão. «O pão resulta da mistura de diferentes elementos e é nessa união que está o poder da transformação! É um símbolo de tal maneira forte da nossa cultura que gostaríamos de instituir o Dia Nacional do Pão na Primavera, ligado à ideia da solidariedade e da gratidão, isto sem qualquer conotação religiosa. Encontramos no planeta uma riqueza gratuita, mas hoje tornamos tudo muito negócio, as próprias relações humanas são muito contratuais. O que estamos dispostos a dar sem receber, sem cobrar?»
«Sejamos gratuitos por um dia» é o desafio lançado por Henrique Pinto. «No Dia Nacional do Pão, cada pessoa, cada empresa ou organização poderia à sua escala oferecer algo, um bem, um serviço, um sorriso. Há fome, há pobreza, há guerra no mundo porque nos tornámos secos interiormente. É preciso voltar a reforçar a componente mais humanista da educação». A ética, a solidariedade também se aprendem, também se cultivam. «É preciso despertar uma solidariedade genética, que nos corra nas veias, ligada à nossa maneira de pensar e agir, e não à tona, removível como verniz». Enquanto houver quem não tenha pão ou um tecto onde o guardar, a Cais continuará a sua luta. «Contra a indiferença, pela dignidade da vida humana!»
«As coisas vão dar certo, tenho a certeza»
Arnaldo, Brasileiro, vendedor da revista Cais «Sou pobre, logo, já não sei até que ponto ainda existo, pois o facto é que, nos dias actuais, nós não somos nada além daquilo que temos. Portanto, como eu não tenho nada, já não sei mais quem sou. Talvez eu seja apenas uma ilusão da minha própria mente, cansada e deturpada pelas muitas vezes em que perco os sentidos no meio da minha própria dor. Aliás, dor, fome, medo, são apenas adereços desta peça de tragédia na qual se traduz a vida opaca e vazia de um pobre como eu, gente que já não se sente humana por ser tratada como lixo. Gente como eu e que bem poderia ser você, que não se importa com aquilo que não sente na pele». As palavras de Arnaldo, 30 anos, deixam-nos sem fôlego para acrescentar seja o que for...
Ficou na rua apenas três dias, três dias à mingua, de chinelos nos pés e sem nada para comer, só com a roupa do corpo e o estômago vazio, «colado» de nada ter a não ser fome como nunca imaginara poder sentir. «Estava bem fraquinho quando cheguei ao albergue [dos sem-abrigo], sentei-me no chão, fiquei três horas ali à espera que abrissem as portas. Não esqueço», conta Arnaldo, corpo valente, boné na cabeça e sorriso triste. «Quando me vi de repente na rua, lembrei-me do concelho da minha avó que está no Brasil: quando estiveres no estrangeiro e tiveres problemas, corre para o consulado a pedir ajuda». Foi o que fez em julho deste ano, quando foi roubado na casa onde vivia e se viu em apuros sem poder voltar. «Quando não se conhece ninguém e não há dinheiro no bolso, fica-se sujeito. A minha preocupação foi passar a noite perto da polícia, o meu maior medo era que me roubassem os documentos, isso seria o fim.»
Arnaldo Spatz está em Portugal há dois anos, veio como a maioria dos brasileiros a residir no nosso país, com um visto de turista: «Tinha uma pacote turístico especial, saí de São Paulo, fui para Buenos Aires, depois viajei para Madrid e por fim Lisboa». É um viajante do mundo, já antes tinha estado a trabalhar nos Estados Unidos e em Israel. «Mas a situação de trabalhador ilegal não me interessa. Escolhi Portugal não tanto pela língua, porque também falo inglês, hebraico e alemão, mas por sentir que existe uma maior identificação cultural e por pensar que, à partida, teria mais hipóteses de conseguir a legalização». A avó materna é portuguesa, o avô era judeu. «Vim de um casamento conturbado, a relação chegou ao fim e para mim só havia uma solução: sair dali e recomeçar a vida noutro cenário». Se ficasse em São Paulo, a «parada podia ser perigosa». «Trabalhava até ao limite das minhas forças, estava 18 horas fora de casa fazendo serviço de taxi e frequentando a Faculdade, a família praticamente só me via ao domingo. Talvez por isso, as coisas tenham corrido mal...» Do outro lado do Atlântico ficaram os filhos, de três e seis anos e o curso incompleto de Sociologia Política.
«A revista Cais é um produto de qualidade que vendo com orgulho», diz Arnaldo, firme no seu ponto de venda em frente à Loja do Cidadão nos Restauradores, em Lisboa. «Represento uma instituição da qual tenho o maior respeito». Aos fins de semana, tenta a sorte também nas feiras da Ladra e do Relógio mas não vende mais do que oitenta a cem revistas por mês. «Não dá retorno suficiente» mas é o único recurso que tem enquanto termina os cursos de formação na associação Cais e pernoita num centro de acolhimento. Quando chegou a Portugal, trabalhou em duas grandes empresas de telecomunicações como instalador de linhas telefónicas e agente comercial. O visto de turista caducou, o trabalho acabou. «Mas com ou sem papeis, vou me virar, assim que acabar o curso de requalificação profissional vou conseguir trabalho, as coisas vão dar certo, tenho a certeza». Hoje percorre as ruas de Lisboa a pé, «já que não vou ao ginásio, pelo menos faço exercício». Assim que tiver oportunidade, garante, percorre a cidade como taxista. O curso de Sociologia Política não está esquecido. «É um sonho que tenho desde criança, fiquei no terceiro ano mas se for preciso começo tudo de novo».
«A pior coisa é não ter nada para fazer»
Pietro Italiano, vendedor da revista Cais «Toda a gente tem que sair do albergue [dos Sem Abrigo], no máximo, às nove da manhã e só podemos voltar às seis da tarde. E o que é que se faz durante o dia? Nada? Volta-se para a rua? Anda-se por aí? Isso é uma grande tristeza e um perigo...» O desabafo é de Pietro Frantantonio, 42 anos, italiano, vendedor da revista Cais há pouco mais de dois meses. «Só posso dizer que estou muito grato por todo o apoio que a associação Cais me tem dado». Só lamenta não ter chegado mais cedo. «Há muita falta de informação, se divulgassem mais, talvez não houvesse tanta gente na rua, porque quando não se tem nada para fazer, quando não há ninguém para nos ouvir e ajudar, o risco de voltarmos a cair no mesmo é muito grande».
Como qualquer cidadão europeu, Pietro pode circular, trabalhar e residir no nosso país. «Estou cá há cinco anos mas a certa altura fiquei sem documentos válidos e não tinha dinheiro para os pagar, nem condições para tratar dos documentos sozinho». Os caminhos da vida, outrora percorridos como motorista, levaram-no ao submundo da toxicodependência, primeiro em Milão, zona onde sempre trabalhou e viveu, depois em Portugal, país que escolheu para integrar uma comunidade de tratamento de toxicodependência. «Quando saí do tratamento, preferi não continuar em Itália, pensava que lá seria mais difícil mas, afinal, aqui também foi. Cheguei a Portugal de carro, telemóvel, dinheiro no bolso... mas as coisas começaram a correr mal». Fome, frio, desespero pela dose maldita, sujeito a tudo: «Estava cansado daquela vida, já não aguentava mais». Foi resgatado por uma equipa de rua, entrou no programa de substituição com metadona, um centro de acolhimento em Xabregas passou a ser a sua morada nocturna. Com a descoberta da Cais, os dias deixaram de ser penosos.
«Todos os dias quando me levanto penso: hoje pode ser um dia bom!» Veste a camisola Cais apenas três manhãs por semana, em frente ao Centro Comercial das Amoreiras, com as revistas na mão. «Há dias em que faço cinco euros, noutros, nada...» Mas nem por isso os dias deixam de ser positivos. «Com a ajuda da Cais, já consegui entrar em contacto com os meus pais, já tratei do passaporte, já juntei dinheiro para comprar um telemóvel, fiz o meu currículo, tenho e-mail pessoal e estou a tirar o curso de informática!» Parte dos dias passa-os a navegar na internet na sala da Cais Digital. «Não desisto de procurar trabalho, tenho a certeza que vou agarrar a oportunidade que me derem, quem me der trabalho não se vai arrepender».
Pietro tem olhos de menino, dá um jeito à gola do casaco, sapatos e calças beges, impecáveis para um dia de chuva: «Sempre me esforcei por andar bem apresentado, mesmo quando estava na rua. Não sou capaz de fazer mal a ninguém, mas era visto como um delinquente. Droga nunca mais. Já sofri tudo o que tinha a sofrer». Trabalhar, ter dinheiro para sobreviver e pagar um quarto com casa de banho e cozinha é tudo quanto sonha. «Num albergue com trezentas pessoas não há espaço para privacidade, todos os nossos pertences têm de caber num cesto que nos dão e que mal dá para guardar a roupa interior». A vida não cabe numa caixa, sabe Pietro: «Não estou a criticar nem a lamentar, são as regras e eu cumpro-as». Mas a vida merece poder deixar os sapatos de baixo da cama sem que desapareçam no dia seguinte.
«Quando digo sim, dou o meu melhor»
António Engraxador Cais Deixou a venda da revista, para abraçar o projecto engraxador Cais, que arrancou este mês de Dezembro. «Quando me foi proposto, ponderei e aceitei quase de imediato, é uma mudança, um novo desafio que vou cumprir o melhor que conseguir.» António Pina, 48 anos, é perfeccionista em tudo o faz: «Se digo que sim, quem me conhece sabe que pode contar comigo, é uma questão de responsabilidade, tenho que ter brio no que faço, se faço algo é para fazer bem, sou exigente comigo, só assim me sinto bem». Nunca foi engraxador, é a primeira vez que desempenha o ofício. «Aprendi a técnica com um engraxador profissional», a formação que recebeu na associação fez o resto. O centro empresarial Lagoas Parque, em Oeiras, é o seu novo local de trabalho, «vamos ver como resulta». Nos últimos onze anos tem sido o rosto mais visível da Cais na estação de Metro do Marquês de Pombal: «Tenho clientes que me telefonam para saber se já saiu o novo número da revista, estabeleci uma relação de confiança, as pessoas conhecem a minha postura». Sempre sóbria, sempre cordial.
«Só espero que a minha visão me permita desempenhar as novas funções por muito tempo». A perda de visão progressiva, resultado de uma doença hereditária que afecta a retina, tem lhe toldado a vida. «Estudei, sempre trabalhei, era profissional no ramo da hotelaria como empregado de mesa, estive no Hotel Ritz, na Portugália. Fui responsável pela manutenção técnica numa escola secundária, estava efectivo mas pedi a exoneração de funções, com a minha perda de visão não podia arriscar, não me achava competente para exercer plenamente o serviço, e se houvesse algum acidente? Em primeiro lugar, tinha que pensar na segurança de dois mil alunos». O casamento falhou, a reforma por incapacidade não lhe foi atribuída, tudo o que conseguia eram trabalhos pontuais, não sentia ter condições mínimas para ser um bom empregado de mesa, às tantas viu-se na rua, sozinho, sem rumo... A vida, via-a cada vez mais afunilada.
«Nasci com este problema e eu nunca fui pessoa para querer incomodar os outros, entende? Se eu tivesse um suporte, não desabava tudo.» Viveu na rua dois meses, passou depois a dormir num centro de acolhimento. Com a venda da revista Cais, conseguiu um suporte, um «complemento» que junta agora à reforma: «Vivo na zona do Rato, num quarto alugado, sou sócio de uma colectividade onde toco guitarra, é a minha libertação».
«Não desisti e consegui»
Marta Utilizadora entusiasta dos serviços Cais «Frequento tudo onde me possa meter», conta Marta, 31 anos, frequentadora da associação Cais. «Fiz aqui dois cursos de informática, o básico e o avançado, participo no grupo de teatro, no coro, no ioga, nas iniciativas de artes plásticas, e estou a ver se fico com equivalência ao nono ano através do plano de reconhecimento e validão de competências, enfim, participo em tudo o que houver». Nos últimos nove meses, Marta tem passado os dias nas instalações de Marvila, a Cais passou a ser a sua «escola» e o seu porto seguro. «Sei que esta passagem pela Cais não se devia prolongar, estou a munir-me de ferramentas para seguir o meu caminho, mas às vezes dou por mim a menosprezar os meus sonhos, como se não fosse possível acreditar neles. Acho que tudo se deve à falta de uma única base, a falta de confiança em mim e nos outros.» Mas o futuro começa a acenar-lhe: «Acabei de saber que vou participar numa formação subsidiada pelo Centro de Emprego, nem posso acreditar, finalmente tenho trabalho!!!» A felicidade não cabe no seu sorriso de orelha a orelha, dá saltos de contentamento, a vida está a voltar aos eixos, os dias hão-de correr melhor, a esperança voltou!
Marta Lopes dorme num centro de acolhimento para os sem-abrigo. Estava a trabalhar como empregada de mesa, o contrato acabou, o tecto do quarto que alugou desabou, viu tudo por um fio: «Não cheguei a passar nenhuma noite na rua, é perigoso, principalmente para uma mulher. Tratei logo de pedir ajuda e ficar num albergue, pelo menos tenho tecto enquanto não tenho trabalho. Nunca me meti em drogas nem em nada disso, graças a Deus, disso estou livre». A precariedade arrasta-se há um ano e meio, saiu de casa da mãe «porque as discussões eram permanentes, tudo o que fazia estava sempre errado, a situação era insuportável». Bateu com a porta mas ficaram as duas filhas. «Saí com um peso de culpa tremendo, todos os dias penso nas minhas filhas, quando vejo crianças na rua estou sempre a ver se são elas, dou por mim a procurar aquelas vozinhas.» As filhas, de quatro e dez anos, foram entregues aos cuidados da tia. «O pai das crianças, o meu ex-companheiro faleceu e eu não tinha nada para lhes dar». Os olhos ficam marejados de lágrimas: «Sabe, tenho que lhes dizer que gosto muito delas, que estão sempre comigo onde quer que eu esteja».
Trabalhos pontuais foi tudo quanto conseguiu nestes meses. «E como é que sozinha se consegue pagar uma casa e alimentar e vestir duas crianças, quando não nos dão contrato nem sequer o ordenado mínimo?» Marta tem que provar que reúne as condições mínimas para cuidar das filhas. «Sabe, para mim, a maior pobreza é sermos pobres nos sonhos, na esperança, é a falta de alimento da alma.» Demasiadas vezes faltaram-lhe as forças, demasiadas vezes achou que não era capaz: «Mas ser coitadinha não adianta, temos que lutar, acreditar em nós e deixar de ter tanto medo do mundo.» Agora que vai passar a ter um rendimento fixo, já não pensa noutra coisa: «Vou poder estar com as minhas filhas, nem que seja um fim de semana de vez em quando!»
«Ando na corda bamba»
Miguel Participante do campeonato de futebol de rua «Está a falar com um ex sem-abrigo genuíno, foram muitos anos de álcool e de rua, de esquemas, de aventuras e desventuras, devo ter vivido em todos os centros de acolhimento de Lisboa.» Miguel, 47 anos, prefere não dar a cara. «Desde há sete anos que vivo em quartos alugados, faço uns biscates, prefiro que as pessoas não saibam, muitas não aceitam esta coisa de ter sido sem-abrigo. A vida na rua é dura, aprendi a sobreviver no mato, como se diz na gíria, a inventar ideias para viver.» Foi farmacêutico, chegou a ter dois cafés, mas nada deu certo, o casamento não aguentou, a filha teve de crescer com o pai ausente: «Tudo por causa dos copos, as coisas sempre correram mal mas quando se é novo e se tem crédito melhor ou pior as coisas vão rolando, depois tudo descamba. Quando não se tem o dinheiro que se devia ter, quando não se tem a cabeça que se devia ter, quando se dá cabo do físico, das amizades, da vida. A saúde está tragada, posso ter tido muitas aventuras mas com esta idade estou acabado.»
Miguel fez parte da equipa que representou Portugal pela primeira vez no Mundial de Futebol dos Sem-Abrigo, em 2004. Na altura, vendia a revista Cais, entrou para a selecção nacional, «não por mérito próprio» mas pelo seu estatuto de «homem da rua». «Eu até nem tenho grande jeito para jogar, mas foi giro ir à Suécia, estar lá dez dias com a malta toda, a gente ganhou outro ânimo, tínhamos apoio médico e psicológico, treinador. Isso motivou-me, já conhecia outros países mas nunca tinha estado num país nórdico, de outra forma não teria lá ido.» Miguel prefere agora a bancada ou o sofá, «gosto de ver o futebol, de acompanhar os jogos mas deixei-me da bola, essa coisa do treinador puxar por nós para ganhar não dá comigo». Em 2005, o Mundial de Futebol de Rua decorreu na Escócia. Em 2006, na África do Sul. Este ano foi na Dinamarca e em 2008 será na Austrália. «Quando estamos ligados a uma associação como a Cais vamos tendo apoio, mas depois ficamos por nossa conta, aí é que sabemos como é que estamos de forças, se a nossa cabeça tem tino.»
«Esta coisa de ser sem-abrigo regenerado é muito bonita de pintar mas como é que se endireita a vida aos cinquenta anos? Como é que se consegue dar a volta? A vida já é tão difícil para quem tem emprego, família, saúde. Como é que a gente muda? Estou um ano bem, três meses mal. Recupero, volto a cair. Como é que eu saio disto?» Miguel evita que a filha, prestes a terminar o curso superior, o veja nos dias maus. É a reforma por invalidez que o aguenta. «Não tenho orgulho de vinte anos de copofonia. Um copinho à refeição, mais outro. A gente quando começa a beber nem pensa, gasta-se o que não se tem, sentimo-nos eufóricos, somos reis. Gozei muito, tive muitas namoradas, ou melhor, não eram minhas, eram do dinheiro que tinha, fiz muitas farras, mas tudo espremido, o que é que dá? Mais desprazer do que prazer...»
Por Gabriela Oliveira
Nota: Artigo publicado na revista Notícias Magazine nº812, de 16-12- 2007, páginas 46-54.
Courtesy of Diario de Noticas
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