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Travessias

  25 May 2019

(Originally published: 11/2009) Em seus filmes, a psicanalista Miriam Chnaiderman mergulha em histórias de dor e sofrimento, das quais emergem a força da vida e a esperanza. O que será que acontece com um alguém tão sem lugar no mundo? Esta é a pergunta que instigava Miriam Chnaiderman em seu documentário “Procura-se Janaína” (2007), sobre o sinuoso e triste caminho de uma menina abandonada pela família, acolhida pela Febem nos anos 1980 e que carecia de atendimento especial e individualizado. “Uma criança que traz todas as marcas da exclusão: institucionalizada, pobre, negra, psicótica. Onde cabe?”, questiona a psicóloga Deborah Sereno no filme. Janaína não estabelecia contato, não chorava, não falava, mas transbordava um lamento de tal intensidade que chamava a atenção de todos à sua volta. Em seus filmes, a psicanalista Miriam Chnaiderman mergulha em histórias de dor e sofrimento, das quais emergem a força da vida e a esperanza.  - By

OCAS

Courtesy of OCAS

O que será que acontece com um alguém tão sem lugar no mundo? Esta é a pergunta que instigava Miriam Chnaiderman em seu documentário "Procura-se Janaína" (2007), sobre o sinuoso e triste caminho de uma menina abandonada pela família, acolhida pela Febem nos anos 1980 e que carecia de atendimento especial e individualizado. "Uma criança que traz todas as marcas da exclusão: institucionalizada, pobre, negra, psicótica. Onde cabe?", questiona a psicóloga Deborah Sereno no filme. Janaína não estabelecia contato, não chorava, não falava, mas transbordava um lamento de tal intensidade que chamava a atenção de todos à sua volta.

 

Janaína é singular, como também são os personagens captados pela lente "encantada com o enigma do humano" de Chnaiderman; eles, ao resistirem a situações-limite, reinventaram suas vidas. Para nomear seu oitavo trabalho, exibido no festival "É Tudo Verdade" deste ano e na TV Cultura, a "psicanalista que faz cinema" - como Miriam se define -, revela ter encontrado uma palavra que poderia sintetizar toda sua obra até então: "Sobreviventes" (2008). São relatos de pessoas que, diante de condições muito adversas ou de "quase morte", conseguiram encontrar algum caminho para continuar. Entre os entrevistados está Sebastião Nicomedes, escritor e colaborador da Ocas'', cujo depoimento sobre a participação no filme está no blog http://blogdaocas.blogspot.com.

 

Antídotos

Em 2003, Miriam Chnaiderman participou do debate "Excluídos. De onde?", promovido pela Ocas, em comemoração ao primeiro aniversário de circulação da revista. Seis anos depois, nos recebe em seu apartamento em São Paulo para "continuar a conversa". Durante esse intervalo, dividindo o tempo entre o consultório e o cinema, produziu seis documentários. Agora está às voltas com a finalização de "M'Boi Mirim: dos Índios, das Águas, dos Sonhos", sobre o bairro da zona Sul de São Paulo: "Tive a ideia de convidar os índios que moram em Parelheiros para apresentar essa região que já foi muito violenta, o Jardim Ângela. Hoje, [esse panorama] foi totalmente invertido, por conta de um belíssimo trabalho de ONGs", afirma. Entre os novos projetos, um filme sobre o perdão.

 

Apesar da aparente aridez dos temas em que se debruça a produção de Miriam Chnaiderman, seus documentários não oprimem nem violentam o espectador; ao contrário, são, sobretudo, um antídoto à intolerância e um convite a novas possibilidades, a reavaliar valores e a procurar espaço, aconchego ou ao menos compreensão para pessoas ditas "à margem". Universal e extremamente humano, em que se destaca a entrega contundente dos entrevistados e da diretora, o acervo, infelizmente, tem pouco espaço para divulgação - como ocorre com a maioria dos documentários brasileiros: "A gente quer que todo mundo possa assistir. Mas os filmes deveriam ser também uma fonte de renda, são caríssimos e exigem enorme doação. Cada milímetro teve som e luz intensamente trabalhados. Deveria haver formas de distribuição e acesso nos quais tudo fosse considerado, inclusive o investimento dos produtores e diretores. Acho o Youtube incrível e ele vem obrigando a repensar tudo isso", reflete a psicanalista.

 

No sofá da sala, compartilhando a atenção com o cachorro e os dois gatos, cada qual com sua demanda, Miriam Chnaiderman conversa com a Ocas'':

 

OCAS: "Dizem que sou louco", sobre a realidade das pessoas ditas "loucas" que habitam as ruas, foi seu primeiro documentário. Depois você produziu outros filmes, e em todos a gente vê as mazelas, as dores e o sofrimento, mas a vida e a esperança também. Até pelo título deste último, "Sobreviventes".

 

Miriam Chnaiderman:- Sou uma psicanalista que faz documentários e o que me move e o que me interessa nos documentários é o que me move como psicanalista. Tenho certo pudor de dizer "sou uma cineasta" porque me sinto uma psicanalista que vai para o mundo e que continua encantada com o enigma do humano. Desde o "Dizem que sou louco" o que me pega são os fiapos de vida e de criação nas condições as mais adversas. É de uma dignidade, de uma nobreza um ser humano que, nas situações as mais terríveis, encontra dignidade, um jeito de se enfeitar e de se fazer bonito! Isso tem em todos os meus filmes: a esperança, a vida e a crença no humano. No "Sobreviventes", há pessoas que passaram por situações de quase morte ou de limite, mas que resgataram a vida, a criação, a invenção. Cada um vai encontrando um caminho, alguma via de dar sentido à vida. Esse filme é meio que síntese de tudo o que eu já produzi.

 

OCAS: Em "Sobreviventes", o enfrentamento da situação-limite pelos entrevistados é singular em cada um deles? Ou é possível identificar semelhanças em como as pessoas lidam com uma realidade muito dura?

 

M.C.: É bem singular como cada um vai reencontrando a vida. Eu acho tão impressionante e encantador [esse processo], a gente não consegue tirar leis gerais. O filme é rodado num mesmo lugar, tem uma única poltrona, tem um humano posto lá, naquela situação. Mas os meandros, o como cada um vai lidando, é tão individual. Não existe um molde, cada ser humano do qual a gente se aproxima descobrimos e reinventamos a vida, o cotidiano, é de uma riqueza incrível.

 

OCAS: Há nesse filme uma intimidade e uma entrega contundente por parte dos entrevistados. Qual o procedimento para criar esse chão afetivo que se instalou no momento dos depoimentos? Esse cuidado que você revela em seus filmes contribui também para o nosso trabalho. Para a edição de maio/junho da Ocas'', conversamos com pessoas em situação de rua sobre como se proteger do frio.

 

M.C.: Houve um cuidado enorme com as pessoas. Eram buscadas, acompanhadas por terapeutas, aconchegadas, tinha uma mesa com coisas gostosas. Contei com a ajuda do Reinaldo Pinheiro, meu marido, que cuidou da imagem, para eu ficar totalmente dedicada à entrevista, porque estava muito preocupada em criar esse chão afetivo, as pessoas iam falar de situações de dor. Encerrava as entrevistas sempre num momento de vida, de esperança, de criação, um cuidado para que elas saíssem se sentindo bem. Eu saía bem exaurida da situação. Há também, de forma bem marcante, a minha experiência como psicanalista, primeiro porque eu tenho uma enorme curiosidade e um encantamento com qualquer pessoa, e acho que, de algum jeito, isso aparece. As pessoas [entrevistadas] eu estava encontrando pela primeira vez. Não ia buscá-las [em suas casas] porque estava entrevistando alguém. Mas ficava na porta, esperando. O que eu pudesse tornar confortável eu tornava. Eu acho que, em todos os meus documentários, tem [esse desejo] de querer acarinhar, aconchegar. Tem algo que eu observo também nos filmes do Eduardo Coutinho: as pessoas se abrem e falam. É para se pensar: o que a câmera produz nas pessoas? De algum jeito elas ficam protegidas pela existência da câmera e falam de coisas que não sei se falariam numa outra situação. No "Sobreviventes", há um relato de uma mãe que perdeu três filhas num soterramento. Ela e o marido não tocam nesse assunto. Levou, no dia [da gravação], o filho que ela adotou. Foi a primeira vez que falou sobre isso, ela saiu de lá grata e aliviada, eu fiquei muito aflita naquele depoimento, ela chorou muito e era de uma dor, de uma coisa, fiquei muito angustiada. Agradeceu por ter falado. (...) Acho que tem algo da minha experiência clínica, mas tem também algo do que é o falar para uma câmera. Num debate, uma pessoa disse que, "na hora em que você está diante da câmera e sabe que isso vai virar documentário, a fala se torna politizada, porque vai ser pública, então a pessoa vira parte de uma comunidade. Há uma pertinência ao mundo que se instaura quando você fala para uma câmera", que é um jeito bonito de pensar o documentário.

 

OCAS: Você falou de encantamento, mas também de angústia. Estar no mundo é doloroso também para quem tem a profissão de ouvir o sofrimento do outro?

 

M.C.: Claro, sim. Nesse filme e nos outros. Eu sempre sou muito tocada pelo que eu ouço, pelo que eu vejo. Não dá para não ser afetado. Quando a gente vai para o mundo, vocês devem sentir isso no trabalho da Ocas'', a entrevista já é uma intervenção. Você instrumenta, pergunta, propõe questões que mobilizam. Por exemplo, quando vocês foram perguntar para as pessoas como elas lidavam com o frio...

 

OCAS: Saímos arrebentados de lá. Essa semana ainda mais, quando a temperatura chegou a seis graus.

M.C.: E os albergues não dão conta de todo mundo...

 

OCAS: A questão é complicada. É certo que existem bons e péssimos abrigos, mas o fato é que existe uma postura legitimada pela sociedade de recolhimento dessas pessoas do espaço público, em que muitas vezes o abandono na rua é substituído pelo abandono nos albergues.

 

M.C.: Eu tenho uma visão da rua que muita gente sempre criticou. Acho que o albergue tem que ser uma escolha. Quando fiz o "Dizem que sou louco", formulei uma proposta de trabalho na rua. Essas pessoas têm dificuldade de sair da rua porque há uma solidariedade, uma liberdade, uma cumplicidade que elas podem não encontrar em outro lugar. Em geral, não gostam de ir para o albergue porque vão cortar o cabelo, tomar banho, não tem onde deixar o cachorrinho, a carroça, os pertences. A questão complicada é como respeitar o jeito dessas pessoas serem e instrumentá-las para uma condição mínima de vida. Isso se pode fazer na rua. Acho que a rua pode oferecer e fornecer serviços. Meu sonho é ver o [baixo do] Minhocão repleto de oficinas de costuras, de bonecos, cada um fazendo e usando sua arte e seu ofício para poder viver na rua de um jeito mais digno ou poder escolher passar uma noite no albergue. Respeitar o nomadismo. A população de rua nos obriga a repensar certos parâmetros de trabalho. A questão é poder ver o que cada um fez na vida, como ganhou seu dinheiro, se tem algum jeito de exercer esse ofício na rua. Pode parecer uma utopia, mas quero não perder.

 

OCAS: Fala-se muito em alternativas de saída da rua. Tanto para o poder público quanto para algumas entidades que assistem a essa população, a situação de rua é vista como uma grande violência.

M.C.: É uma violência, sim, embora haja pessoas que encontrem na rua alguma paz, por incrível que pareça. Pessoas que, quando começam a ficar fragilizadas psiquicamente, vão para rua, e a rua as alivia. E elas encontram jeitos muito impressionantes para se proteger: os grupos, os rituais, os espaços, a solidariedade. São formas de viver dentro desse meio que precisam ser respeitadas. Não adianta, [com o objetivo de acabar com a violência de viver na rua], remover as pessoas, é preciso deixar que a pessoa trace o como vai sair. O que acontece é que as pessoas [a sociedade] não suportam muito ver gente morando na rua, fazendo sujeira. Mas, em nome disso, tiram da rua e não se resolve a questão. É inevitável voltar, a situação de miséria é a mesma. O desafio é como instrumentar essas pessoas a se apropriar da própria vida.

 

OCAS: Como fazer isso?

 

M.C.: Idealmente, a utopia que eu construo é poder saber da história de cada um e construir, com cada um, um percurso, com carinho e cuidado. Talvez não fosse tão difícil que essas pessoas fossem pequenas prestadoras de serviços: encanador, jardineiro. Pensar em como essas pessoas podem ganhar a vida e escolher o que vão fazer, como sobreviver.

 

OCAS: A problemática da população de rua é geralmente ligada à exclusão, à moradia, ao desemprego, mas é pouco discutida à luz da saúde mental, ainda que muitas pessoas em situação de rua estejam em sofrimento psíquico.

 

M.C.: Quando comecei a fazer o "Dizem que sou louco", em 1992, a questão era descobrir quem a cidade nomea-va como louco, sem entrar na discussão se é ou não. Mas como diferenciar um sem-teto que perdeu os documentos do dito "louco de rua"? Aos poucos, fomos descobrindo. Nesses personagens [os "loucos"], a questão que os moti-vou a ir para as ruas não foi o desemprego, foi um momento de muito sofrimento psíquico, e a rua os aliviou, como se o barulho da rua aliviasse o barulho interno. Mas o fato é que, estando na rua, em condições muito terríveis de vida, emergem o sofrimento psíquico e coisas muito primitivas não trabalhadas psiquicamente. Na rua tudo fica mais à flor da pele. Uma das perguntas que eu tinha, e que hoje acho que consigo responder melhor, é se o viver na rua pode enlouquecer ou levar a um grande sofrimento mental. Não é que a rua enlouqueça, mas, nessa situação de precariedade e de limite, emerge aquilo que se tem de mais primitivo, os recalques nos comportamentos ficam mais relativizados. Então é fundamental pensar a saúde mental na população de rua, concordo que é uma questão descuidada nos albergues, ainda que haja moradores em situação de rua que buscam medicação e tratamento nos CAPS [Centro de Atenção Psicossocial] de São Paulo. São poucos, mas tem.

 

OCAS: Pedro Delgado, o coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde, afirma que o Brasil não vive hoje num cenário manicomial no sentido clássico, mas que a sociedade tem respostas totalitárias para a questão da exclusão, da diferença. Ele cita como exemplo a questão da população de rua, em que as pessoas são levadas aos albergues. Fala que o desafio da reforma psiquiátrica é buscar esses buracos onde o "manicômio" se enfiou e está instalado profundamente.

 

M.C.: No "Procura-se Janaína", tive uma experiência bem dura de contato com a reforma psiquiátrica porque o hospital onde encontramos a Janaína é um daqueles enormes, como o Juqueri. Ela foi para lá com sete anos, hoje tem 30. Vi que era um hospital seguindo os preceitos da reforma. Mas a mentalidade psiquiátrica [antiga] é tão arraigada que os pacientes estavam medicados, jogados, impregnados. Retirar do hospital e colocar numa residência terapêutica é uma questão? Antes estavam para-lisados no hospital, agora ficam parali-sados na residência. Precisa haver uma mudança. Acho, por exemplo, que precisa haver equipes de trabalho (terapeutas, psiquiatras) nômades, que circulassem pelas cidades, que fizessem na rua intervenções necessárias. Tem que ter essa descentralização. Não se precisa institucionalizar uma pessoa para ela ser trabalhada, ser atendida, penso que [a psiquiatria] precisa ficar porosa para o que acontece no mundo e poder interferir de jeitos outros. Essa população propõe que a gente invente outros meios de trabalhar, senão vamos ficar repetindo esquemas nos quais ela não se amolda. No "Dizem que sou louco", aprendemos a discernir alguém que está na rua positivando seu jeito de existir. Os "loucos de rua" são aqueles que têm um capuz, uma roupa "esquisita", ou que andam com pombas ou bichos, são parte da paisagem. É impressionante como eles se afirmam e a cidade de se curva a eles, porque conseguiram se recortar e existir. São todos muito dignos e nobres, e eles dão uma lição para nós todos, de se poder exercer aquilo que é. A gente tem muito a aprender com essa vida sem eira nem beira, que não se rege por parâmetros tão estáveis como estamos acostumados. O que eu tenho aprendido com os documentários é o arriscar, experimentar e poder ser balançada, ser questionada pelo mundo.

 

OCAS: A Ocas'' começou a acompanhar experiências no universo da saúde mental, publicadas numa série de reportagens ao longo deste ano. São projetos que vão de encontro com o modelo "manicomial", e seus participantes afirmam que o papel terapêutico é fundamental na transformação da vida de cada um. Mas esses trabalhos têm sua limitação. Há casos que demandam um atendimento específico e diferenciado. No "Procura-se Janaína", a Janaína estava na Febem e precisava ser tratada fora. Minha avó sofre da doença de Alzheimer, está numa casa de repouso de longa permanência. Chega um ponto em que é necessária aquela instituição que hospeda o paciente.

 

M.C.: Para alguém com Alzheimer, é complicado mesmo. Chega um momento em que você não pode fazer mais nada. Talvez a pessoa fique melhor no meio de outras e sendo cuidada 24 horas por dia. A questão não é acabar com essa possibilidade dos asilos, de um lugar onde se tenha mais infraestrutura do que com a família. Socializar o momento, coletivizar o envelhecimento eu acho válido, é preciso se despir dos preconceitos e pensar cada caso. Já no caso da Janaína, se estivesse com a família, teria chances de não estar deste jeito em que se encontra hoje [Janaína fala muito pouco e está em uma residência terapêutica]. Com essas passagens institucionais, as conquistas vão se perdendo. O desafio é acabar com os hospitais psiquiátricos, não com a possibilidade de internar alguém que esteja mal num hospital geral, como ocorre em qualquer outra doença. Claro que não adianta eliminar o antigo se não forem criadas estruturas substitutas de amparo para o paciente, para a família. Sei que falar no abstrato fica tudo muito simples, o desafio é ver caso a caso, entender, pensar, acho que as regras têm que dar espaço para as exceções.

 

OCAS: Queria retomar o debate do primeiro aniversário da Ocas'', em 2003, do qual você participou: "Excluídos? De onde?". A Ocas e outros projetos que conferem trabalho e renda a pessoas em situação de rua têm dificuldades em reter essa população. Acreditamos que um dos motivos seja porque a venda da revista é muito difícil para quem tem baixa autoestima ou autoconfiança.

 

M.C.: Acho que talvez possam ajudar uma dinâmica de grupo e o psicodrama direcionados para a questão da venda. Mas, novamente, entra a questão da história, do que fez cada um ir para a rua e trabalhar com cada um o que é vender a revista. Mas vocês sentem que existe uma acomodação no "estar na rua", de ir atrás do sopão, por exemplo?

 

OCAS: É uma questão de sobrevivência, mas acaba virando um hábito para alguns.

 

M.C.: Mas o quanto o sobreviver por meios próprios é uma questão para eles ou não?

 

OCAS: Essa é uma discussão importante.

 

MC - Talvez o poder sobreviver por meios próprios seja uma questão para alguns homens de rua, não sei se para todos, e se não vai havendo uma acomodação no estar na rua. Até para os meus projetos de eles serem prestadores de serviços é preciso ver o quanto eles querem, ver o quanto isso é uma angústia da gente e não deles. Isso vale também para os vendedores da Ocas''.

 

OCAS: Voltando aos seus filmes, agora discutindo a dificuldade de acesso a eles: há alguns trechos no Youtube do "Procura-se Janaína" e do "Sobreviventes". Como divulgar, como fazer a distribuição de toda a sua obra?

 

M.C.: Não tem jeito, a opção é entrar em contato com a produtora. É a questão do curta-metragem e do documentário no Brasil: não tem distribuidor. É muito difícil. Primeiro porque médias metragens são o "Procura-se Janaína" e o "Sobreviventes", que estão no formato de televisão. Os outros são curtas de 15, 18 minutos. Acho uma saída o Youtube. Mas a gente espera sempre um pouco para fazer isso. Até para cuidar do caminho do filme, os festivais pedem ineditismo, todos os documentários foram feitos a partir de concurso, edital, é tudo caro. Mas eu acho que é legal partilhar.

 

OCAS: Retomando o tema de "Sobreviventes" - na realidade, nesta entrevista não saímos dele -, Drauzio Varella, em seu livro "Por um Fio", em que relata a experiência com pacientes terminais, afirma que escolheu a oncologia pela possibilidade de lidar com a situação-limite, quando o ser humano se concentra no essencial: a luta pela vida. Você observa comportamento semelhante no sofrimento psíquico?

M.C.: Claro. Isso é lindo. No final do "Sobreviventes" colocamos esta frase [da cineasta japonesa Naomi Kawase]: "Eu descubro a beleza do mundo através de homens que chegaram ao limite". É incrível esse apego à vida e ao desejo de viver, é muito impressionante. O termo "sobreviventes" é utilizado para pessoas que resistiram a campos de concentração. Num livro sobre o assunto, foi observado que os cavalos morreram mais do que os homens, o que, para a psicanalista Nathalie Saltzman, é o amor e a identificação à espécie humana que nos fazem permanecer homem nas situações as mais adversas. O que nos torna humano quando estamos sendo objetalizados, coisificados, desumanizados.

 

OCAS: E somos sobreviventes até quando? Até a morte?

 

M.C.: Acho que sim, é muito bonita essa sua pergunta, acho que todos somos sobreviventes, a gente reinventa a vida a cada dia, vai sobrevivendo às coisas que nos tocam. Eu acho, sim, que a gente sobrevive até o dia em que morre (risos).

 

Trechos dos documentários de Miriam Chnaiderman estão disponíveis no youtube (http://youtube.com) e no portal da produtora Sequência1: http://sequencia1.com.br

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