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As novas do Milton

  25 May 2019

Aos 65 anos, Milton Nascimento pára o trânsito. Seja caminhando pela orla do Rio de Janeiro – onde mora este que é o carioca mais mineiro do Brasil –, seja em cima do palco, o dono da voz que Deus teria, se cantasse, como disse uma vez Elis Regina, é um ímã que magnetiza sem precisar entonar um só acorde. Com produção de Wagner Tiso e participação de artistas de Três Pontas, em Minas Gerais, Bituca começa a gravar um álbum de inéditas, depois de uma pausa de sete anos.  - By Denise Mota

Aos 65 anos, Milton Nascimento pára o trânsito. Seja caminhando pela orla do Rio de Janeiro - onde mora este que é o carioca mais mineiro do Brasil -, seja em cima do palco, o dono da voz que Deus teria, se cantasse, como disse uma vez Elis Regina, é um ímã que magnetiza sem precisar entonar um só acorde.

 

Prestes a lançar um novo disco depois de sete anos, Milton está em pleno período de gravações e fervilha de ideias e projetos, mas a voz tranquila parece parar até mesmo o tempo, e é sem pressa que o autor de clássicos como "Maria Maria" ou de hinos como "Canção da América" e "Coração de Estudante" conversa com a Ocas" sobre a gestação do novo trabalho, produzido por Wagner Tiso e que tem previsão para chegar às lojas no final deste ano. O último CD de inéditas foi "Pietá", de 2002.

 

Também as surpresas que lhe reservaram as visitas a Três Pontas (MG) - onde passou a maior parte da infância e de onde despontou para a vida artística -, as fontes de inspiração que encontra em detalhes simples do dia-a-dia, o Brasil de ontem e de hoje, e o balanço pontuado de memórias de 50 anos de carreira fizeram parte desses vários dedos de prosa trocados com Bituca, alguém com a "estranha mania de ter fé na vida".

 

OCAS: A inspiração para o novo disco nasceu em Três Pontas. Como foi a gestação desse CD que você está gravando?

 

Milton Nascimento: - Há um tempo, a Billboard mandou duas pessoas para o Brasil para mapear a música que se faz por aqui. Elas viajaram por todo o país e foram mapeando. Quando chegaram a Minas Gerais, marcaram Belo Horizonte e, no livro que publicaram com o mapeamento, aparece um caminho para Três Pontas. Fiquei maluco na hora em que vi isso. Lá em Três Pontas costuma ir gente do Japão, da Noruega, para ver minha casa, falar com meus familiares etc. Quando vi isso no livro da Billboard, fiquei preocupado porque pensei: "Vai aumentar a afluência de pessoas", isso porque lembrava que apenas eu e o Wagner Tiso éramos de lá. Mas felizmente me enganei, porque tem muita gente nova aparecendo por lá. Quando fui visitar meus parentes em Três Pontas, encontrei em uma vendinha, em encontros organizados pelo primo do Wagner, o Marco, 15 jovens tocando rock, pedi para que me apresentassem quem eram e o que tocavam. No dia seguinte, fomos a uma fazenda e na cozinha da casa havia outros 15 jovens. Comecei a ouvir vocais, muito violão, percussão, e falei: "Que coisa!". No terceiro dia, fui a um almoço em outra fazenda e vi um rapaz tocar ao piano. Meu Deus, que coisa maluca! Em três dias, 30 e tantas pessoas que conheci. Chamei todo mundo para almoçar na casa da minha irmã, e no dia seguinte havia 30 e tantos músicos lá, todos ótimos.

 

Fiquei muito tempo andando pelo Brasil e no final fui a Três Pontas para descansar e encontrei tudo isso.

 

OCAS: Essa descoberta é parte do novo disco?

 

M.N.: Eu os chamei para fazer parte de um disco meu, eles ficaram numa alegria danada. Aí, nesse meio tempo, fui viajar pela Europa, fiquei em Roma vários dias e lá fui ver um show do Lenine. Já tinham me falado: "Olha, os filhos dele só falam de você e tal", e eu estava ouvindo as coisas do Lenine. Durante o show, ele de repente fala que aquela era uma noite especial porque, em todo lugar aonde ele ia, ele sempre falava aquilo que ia dizer, mas pela primeira vez ele ia falar tudo diretamente para aquela pessoa. Começou a falar coisas tão bonitas para mim que poucas vezes eu tinha ouvido antes. Depois do show, fui lá abraçar o cara e pensei: "Poxa, tenho que fazer alguma coisa". Quando estou assim, começo a pensar no que está mexendo com a minha alma, e era o pessoal de Três Pontas. Combinei com eles então de gravar uma música do Lenine, "Paciência". Foram 20 violões e não sei quantos cantores, piano, bateria e baixo. Chamei o Lenine também para cantar com a gente [a gravação faz parte dos extras do DVD "Pietá", de 2006]. Isso há anos já. E então resolvi fazer um CD inteiro com eles.

 

OCAS: A produção é de Wagner Tiso…

 

M.N.: Eu e o Wagner começamos a tocar profissionalmente na mesma noite e éramos vizinhos. Para esse trabalho, pensei: "O Wagner tem que produzir isso aqui". Chamei-o e começamos a gravação há dois dias. Vai demorar um pouquinho, pretendo lançar no final do ano. Vai ter músicas de vários compositores, a metade será de músicas minhas, mas também vai haver canções de outras pessoas, gente de Três Pontas.

 

OCAS: Onde mais, no seu dia-a-dia, você encontra inspiração para compor?

 

M.N.: Adoro nadar e, principalmente, mergulhar. Faço isso em vários lugares aonde vou, sempre. Adoro a minha casa, que lembra muito a casa em que vivi durante a infância, uma casa cheia de gente, e com muitas árvores também. São essas coisas que me dão uma força maior. Também qualquer viagem que faço sempre traz alguma coisa para mim.

 

OCAS: Como vê o Brasil de hoje?

 

M.N.: Para te dizer a verdade, há muitas coisas que não consigo entender: como um país tão bonito, tão rico, com um povo tão especial não tem as coisas em seus devidos lugares. O Rio de Janeiro, por exemplo: se deixarmos as coisas nas mãos de sei lá quem, parece que se faz o possível para acabar com a cidade. E assim em várias partes do Brasil. Às vezes as pessoas que vêm de fora me perguntavam sobre o Brasil, e eu dizia que o Brasil era o lugar do "já era", do "já foi". Agora não tanto, mas a gente tem que trabalhar. Vou te dar um exemplo: uma vez fui fazer um show em um estádio de futebol. Veio Sting, Tracy Chapman, Peter Gabriel, Youssou N´Dour, Bruce Springsteen, e eu era o cantor brasileiro. Na minha apresentação, disse: "Espero que esse show não sirva apenas pela felicidade de ver seus ídolos, mas para que se pense no porquê dessa noite", era um show da Anistia Internacional [realizado em diversos países e, na versão brasileira, no Parque Antarctica, em São Paulo, em 1988].

 

Passaram-se alguns meses, fui à Bahia e dei uma entrevista coletiva. Quando acabou, uma turminha de 16, 17 anos me perguntou se podia falar comigo e eles me contaram que, em reação ao que eu havia falado, eles tinham fundado a Anistia Internacional Juvenil. Quase tive um ataque de felicidade.

 

Passou mais um tempo, fui a Poços de Caldas (MG). Estou em meu quarto, no hotel, e escuto quando batem na minha porta. Vou lá, abro, não tem ninguém. Bateram outras três vezes, e ninguém. Pensei: "Na hora em que baterem de novo, eu abro". Tinha um garotinho de uns sete anos, e aí eu disse para ele: "Boa noite, tudo bem?". Ele me disse: "Eu estou com um pessoal aí". E eu disse: "Podem vir, eu não mordo, não". O mais velho do grupo deveria ter uns 12 anos, e me falou: "Nossos pais contaram do negócio do show em São Paulo, e a gente fundou a Anistia Internacional Infantil, a primeira do mundo."

 

Contei para um cara da Anistia, e ele me confirmou as inscrições do pessoal de Salvador e de Poços, era verdade mesmo. Então a música é a luz que bota a gente para iluminar os caminhos e as pessoas. Se não fosse a música, isso não teria acontecido. Acredito muito no Brasil porque um lugar com gente assim não pode dar errado.

 

OCAS: Que balanço faz dos 50 anos de carreira?

M.N.: Não mudaria nada. Viveria e faria tudo exatamente como fiz.

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