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João Alguém

 Boca de Rua (Brazil) 14 May 2019

(Originally published: 04/2010) Estilo é respeito. Boa aparência é educação. A gente pode até se arrumar, ficar bonita, se pentear, fazer maquiagem, ficar mais moderna, tirar os piolhos, limpar os dentes, mas se não for educada não adianta. Não precisa ser rica. A pessoa chique senta direito, fala com voz calma, não diz palavrão, nem sai gritando, xingando. (719 words) - By One of Brazil’s homeless youth

Boca de Rua

Courtesy of Boca de Rua


Únicos, diferentes, especiais

Estilo é respeito. Boa aparência é educação. A gente pode até se arrumar, ficar bonita, se pentear, fazer maquiagem, ficar mais moderna, tirar os piolhos, limpar os dentes, mas se não for educada não adianta. Não precisa ser rica. A pessoa chique senta direito, fala com voz calma, não diz palavrão, nem sai gritando, xingando. Ela tem simpatia, sintoniza com os outros. A roupa nem tem que ser nova ou cara. Só limpa, ajeitada, não assim largada, destas que viram museu no guarda-roupa. Tem umas calças tão cansadas que nem dá pra lembrar a cor que elas eram. A roupa grita: "Não quero ser tatuagem". Combinação tipo carnaval também fica feio. O mais importante é se arrumar no seu estilo. O que é bonito para um pode não ser para outro. Cada pessoa é única, diferente, especial. O estilo está na criatividade e não no que aparece na tevê. De que adianta ser bonito por fora e ser feio por dentro?


Identidade sem papel

Quando uma pessoa perde a carteira de identidade é ruim. Mas ela não perde a identidade. Porque identidade é o que a própria pessoa é e não um documento, um pedaço de papel. Ela pode não ter nenhum documento e mesmo assim vai ter identidade. A identidade é feita de carne, osso e pensamento. Cada um tem a sua própria identidade, que são as características da pessoa. Uns são simpáticos, outros não; uns são bons, outros são maus ou mais ou menos; uns pensam muito, outros pensam pouco. Tem gente que gosta de Carnaval, de doce, de novela, de jornal e de filme, ou só de algumas destas coisas, ou de nenhuma destas coisas. Tem pessoas que vão para faculdade e outras que nem aprendem a ler. Mesmo assim, esta pessoa vai ser importante porque vai aprender o que se passa no mundo. Existem os que são criados pelos pais e os que são criados por outras pessoas. A educação é importante para fazer as pessoas diferentes e melhores. Pela educação se aprende as coisas mais boas da vida. E não é só a educação do colégio, mas também a dos pais, a dos irmãos mais velhos, dos tios e de quem conhece as coisas. Mesmo quem não sabe escrever é importante, porque essa pessoa sabe muito do que se passa no mundo e pode ensinar para os menores.


João Alguém

Para quem mora na rua é difícil ter documentos. A pessoa não tem estímulo: para que carteira de trabalho, se não tem trabalho? Também não sabe direito como encaminhar e falta um telefone para se informar ao certo. Porque cada documento - carteira de identidade, CPF, título de eleitor, carteira de trabalho - é feita em um lugar diferente. Também falta dinheiro para tirar as fotos e pagar as taxas. Só que mesmo os moradores de rua precisam de documentos. Sem o atestado de residência, por exemplo, quase todos os postos de saúde se negam a atender. Fica impossível votar, pegar receita ou preservativo no postinho, abrir conta bancária. A pessoa fica de fora na sociedade. Além de não ter casa, perde seus direitos, vira um João Ninguém. Isso não é justo. Todo mundo é um João Alguém.


Livre para voar

Aos seis anos minha identidade era a seguinte: eu brincava com minha irmã de casinha, tomava banho de chuva com sabonete, ia pro jardim (escadinhas). Identidade: Uma menina alegre, extrovertida e normal, como qualquer criança. Aos 12 anos, já uma pré-adolescentes na 5ª série, comecei a namorar atrás do colégio, matar aula e mentir para mamãe. Identidade: Uma adolescente rebelde. Aos 18, estive internada no Hospital Espírita para me livrar da dependência da droga e estou me tratando no Caps para sair bem resistente do crack. Hoje sou uma moça mais prestativa para minha mãe, obedeço a ela e compreendo o quanto ela sofreu para me criar. Raciocino antes de falar. Identidade: compreensiva e calma. Minhas metas para 2010: seguir participando do Boquinha e dos grupos ocupacionais e até começar as aulas. Identidade: Livre para voar, pois o viciado vive preso em uma gaiola criada por ele mesmo.


"Tem gente que tem
identidade, mas não
tem carteira de identidade.
Tem gente que
tem carteira de identidade
mas vive mudando
de identidade, imitando
os outros, se fingindo
do que não é"

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