print logo

Malawi: Um dia na vida de um vendedor de papel de rua

 Street News Service 17 December 2019

Harton Banda pode não saber muito sobre literatura elisabetana. Mas se soubesse, iria facilmente admitir que sua vida tinha todos os ingredientes de uma tragédia de Shakespeare, até que o The Big Issue Malawi fez a sua intervenção de boas-vindas, há três meses. (2361 Words) - By Joe Opio

Share

Dayofavendormalawi_ 5

Banda keeps The Big Issue Magazine on display for whoever might be interested as he treks around Lilongwe Photo: Sharon Wibabara

Dayofavendormalawi_ 1

Banda tries to interest a taxi driver into buying a copy of The Big Issue Magazine. Photo: Sharon Wibabara

Dayofavendormalawi_ 2

Banda dishes out copies of The Big Issue Magazine to potential customers in a taxi park. Photo: Sharon Wibabara

Dayofavendormalawi_ 3

Banda zeroes in on a potential buyer at the taxi park. Photo: Sharon Wibabara

Dayofavendormalawi_ 4

After a fruitless time at the taxi park, Banda starts the long trek in search of buyers. Photo: Sharon Wibabara

Dayofavendormalawi_ 6

Banda's long trek through Lilongwe in search of buyers can seem desolate at times. Photo: Sharon Wibabara

Dayofavendormalawi_ 7

Banda exhibits The Big Issue Magazine to passengers in a passing taxi. Photo: Sharon Wibabara

Dayofavendormalawi_ 8

Banda continuously displays The Big Issue Magazine to motorists in the slender hope that it will catch a buyer's eye. Photo: Sharon Wibabara

Dayofavendormalawi_ 9

Banda finally hooks an interested motorist and moves in to make his sales pitch. Photo: Sharon Wibabara

Dayofavendormalawi_ 10

While trying to lure the well-heeled motorists, Banda also keeps out an eye for pedestrians who might be interested in The Big Issue Magazine Photo: Sharon Wibabara

Dayofavendormalawi_ 11

Banda snaffles himself yet another interested motorist and rehashes his one-minute sales pitch yet again. Photo: Sharon Wibabara

Dayofavendormalawi_ 13

Banda concentrates his sales powers at the most probable buyer of all the three interested gentlemen. Photo: Sharon Wibabara


Até então, a vida de Harton se desviou de un infortúnio a outro descontroladamente . Nascido albino, Banda carregava o fardo de um homem condenado desde o nascimento.

A sua pálida cor da pele e aparência incomum marcou ele como diferente desde uma tenra idade.

E um tanto previsível, desde então uma discriminação flagrante que perseguiu cada passo tomado.

"Quando eu era jovem, eu atraía olhadas e olhares de pessoas", diz Banda. "É claro que isso não foi registrado, mas enquanto eu crescia, comecei a notar que as pessoas me trataram de forma diferente."

Agora, psicólogos afirmam que discriminação pode ser superada com o apoio dos entes queridos do indivíduo. Mas Banda nunca teve tal luxo.

Diferentemente da maioria dos casos de preconceito e discriminação, não foram apenas os estranhos e as crianças da vizinhança quem "trataram Banda de forma diferente."

Como Banda testemunhou quando se juntou à The Big Issue, sua própria família e parentes participaram da discriminação também. Isso, segundo ele, foi porque ele era o único albino da família.

"Quando ele veio aqui em outubro", revela Jolyne Kululanga, o oficial de recrutamento de vendedores dos escritórios do The Big Issue em Lilongwe, "ele me disse, até certo ponto, como os seus próprios familiares começaram a lhe falar que ele não era um deles. E que isso talvez fosse porque os demais eram "normais" e ele era o único diferente. Eles nunca o fiezeram sentir como se ele fosse daquela família. "

Um mortal inferior teria esmorecido.

Mas Banda resistiu a tudo o que foi jogado contra ele, concentrado em seus estudos e se saiu impressionamente bem até que as circunstâncias econômicas fizeram com que ele não fosse mais longe.

Foi quando ele foi morar com o seu tio, em Lilongwe. Mas enquanto o seu tio inicialmente agia como um hospedeiro paciente relutante e durão, não demorou muito para Banda ficar sujeito ao tratamento duro novamente.

O seu tio lhe implorou que arranjasse um emprego, ou que então ele iria ser jogado fora de sua casa.

Em desespero, Banda tentou sem sucesso vários lugares para trabalhar. Ao contrário do jovem comum que procura emprego, ele teve de lidar com o fato de que poucos empregadores lhe deram uma chance, e nenhum deles o viu nem o tratou como um jovem normal a procura de emprego.

"Eu estava pronto para fazer qualquer coisa para ganhar algum dinheiro", revela Banda. "Apesar do fato de que eu tinha passado no meu Certificado de Educacao da Escola Malawi, com 21 pontos em 2003, eu estava tão desesperado que comecei a procurar trabalhos braçais, mas mesmo esses eram difíceis de conseguir. Eu só queria ter algo para fazer; algo olhar para a frente quando eu acordava todas as manhãs. Eu tentei lugares diferentes; pedí às pessoas que me alertassem se ficassem sabendo de algo, mas tudo o que eu recebi foram respostas negativas ".

Com portas se fechando e nenhuma se abrindo, o rapaz de 26 anos de idade apostou em um cartaz incitando jovens desempregados e sem-tetos a buscar trabalho próprio com o The Big Issue.

Banda não esperava que a sua sorte fosse mudar muito, mas ele pensou, então, que valia a pena tentar.

Ele invadiu os escritórios do Big Issue em Lilongwe e ficou chocado ao ouvir que iria começar a vender na manhã seguinte, se assim o desejasse.

"Eu esperava a rotina habitual," Banda suspira. "de me fazerem perguntas, e em seguida que eu deveria esperar por uma resposta. Mas quando cheguei nos escritórios da Big Issue, fui informado sobre a revista, os seus objectivos e sua visão; e depois dito que tudo o que eu tinha que fazer era voltar no dia seguinte para já começar a vender. "

À parte da euforia compreensível, a oferta instantânea de um trabalho me inspirou arrependimentos imediatos, Banda se abre.

"Me levou algum tempo para lidar com isso. Não pude deixar de lamentar o fato de eu não ter descoberto essa oportunidade mais cedo. Passei meses e meses à procura de um emprego e fui rejeitado tantas vezes... e sendo que poderia ter sido tudo tão mais fácil se soubesse dessa oportunidade para pessoas como eu pelo The Big Issue."

É evidente que vender as revistas nas ruas requer uma capacidade de resistência e habilidade de lidar com rejeição. E Banda deu bom uso às habilidades que aprendeu com a rejeicao sofrida na sua vida, desde que começou a vender a revista Big Issue.

Assistindo Banda persuadindo inúmeros clientes, se começa a entender por que ele tem vendido o maior número de exemplares da The Big Issue desde que se juntou a ela.

Devido à diferença em sua aparência já tem menas oportunidades que os outros vendedores. Ele tem que se esforçar mais e suar um pouco mais para fazer uma venda. Sem rodeios, ele está sempre enquadrado a falhar cada vez que se aproxima de um possível comprador. E sobretudo, o possível comprador já o julga sem importancia, sem sequer olhar para o que ele tem para vender.

Mesmo assim, sempre resistente, Banda ignora os desprezos e vai para o próximo possivel consumidor com o mesmo entusiasmo que teve com o anterior.

Sua atitude de nao se se deixar afetado pelos outros tem colhido imensos ganhos até agora.

Não só ele é o maior vendedor da revista no escritório da Big Issue de Lilongwe, mas ele também passou vender três vezes mais do que segundo melhor vendedor, em seu terceiro mês nas ruas.

"Ele é o vendedor que trabalha mais duro, sem dúvida," Kululanga, o vendedor coordenador de Lilongwe revela. "Ele vem aqui pontualmente e sempre consegue, de alguma forma, vender um grande volume, apesar de ser novo na família Big Issue".

Ao contrário de seus colegas, que vendem nos semáforos e fazem a maioria de suas vendas durante a hora previsível do rush, Banda não se limita a um local.

Ele caminha distâncias incríveis e lança a sua rede o mais amplo possível.

E é aí que reside o segredo do seu sucesso: Abordar o maior número possível de clientes e deixar o resto para a sorte.

"É verdade que eu recebo muitas rejeições, mas também, no final do dia eu sei que eu vou pegar algumas pessoas que estão interessadas em comprar e que de fato compram. Tento vender para muitas pessoas, porque quanto maior o número de pessoas abordadas,  maior a chance de rejeição, mas também maior a chance de vender as revistas."

Cada venda que Banda faz, no entanto, extrai um preço pesado. Pagou um preco alto

A pele de Banda é mais frágil pelo fato de que ele é um albino. Visto que ele tem de suportar longas caminhadas sob o sol escaldante de Lilongwe, para atender o maior número possível de compradores, fica a mercê da fúria dos elementos meteorológicos, e os seus óculos escuros e boné branco não o protegem muito do calor sufocante e dos raios ardentes.

Ainda assim, ele continua marchando, pois sabe que é insensato queixar-se.

"Quaisquer que sejam as dificuldades, onde estou agora é melhor do que antes", filosofa Banda. "The Big Issue mudou a minha vida radicalmente. Agora, pelo menos, posso cuidar de mim mesmo e satisfazer as minhas necessidades, como qualquer homem adulto deveria. Se fosse como antes eu iria sobreviver de doações. Tenho até deixado a casa do meu tio e conseguido um teto para mim. Estou também salvando o dinheiro restante, pois não planejo vender revistas para sempre."

Para o supervisor de Banda do The Big Issue isso é música para os ouvidos. Embora triste com a possível perda de um vendedor tão diligente, tem o prazer de vê-lo com o poder de se expandir por si mesmo.

Afinal, empoderamento é um pilar cardeal na declaração de missão do The Big Issue.

 

 

MATÉRIA ADICIONAL (sidebar): Um problema lamentável, com efeitos alarmantes

Se, como diz o clichê, as crianças são os líderes de amanhã, então o futuro de Malawi deve aparecer particularmente desolador para quem quer que se preocupe em olhar. Um grande pedaço da futura liderança do país parece estar preso em uma luta quase desesperada para sobreviver, sendo que inundações inoportunas e uma crise alimentar galopante em 2002 deixaram muitas crianças vivendo nas ruas em condições terríveis, e com a tentação de se voltarem ao crime e -lo como um companheiro constante.

Enquanto os líderes futuros em outros lugares freqüentam escolas e refinam suas habilidades para enfrentar os desafios que virão, esta geração do futuro de Malawi se encontra em condições de fome. Elas mendigam, furtam, fazem trabalhos estranhos e entregam-se à prostituição, para sobreviverem num mundo dominado pelo crime.

A questão dos sem-teto no Malawi foi mostrada com calor humano quando a imprensa, há alguns anos atrás, publicou contos de crianças de rua para destacar a gravidade do problema.

A mais chocante entre as histórias publicadas foi a de um órfão de 14 anos de idade, o qual era um veterano da dura vida nas ruas e um mendigo na cidade comercial de Blantyre.

O menino revelou a brutalidade que ele sofreu, antes de coroá-la como uma provação horrível de ser estuprado e sodomizado por dois homens.

"Foi numa quarta-feira à meia-noite quando dois homens entraram no nosso abrigo e pediram por um espaço para dormir", ele revelou. "Quase imediatamente eles mostraram a faca e me ordenaram a tirar a roupa. Quando tentei me opor eles ameaçaram a me matar se eu recusasse ou gritasse. Em seguida, eles introduziram os seus órgãos no meu ânus, um após o outro. Fui sodomizado lá mesmo, no meu quarto."

Foi um conto que provocou um aumento súbito de ligações para o Governo, para resolver a questão dos sem-abrigo em todo o país. Mas depois de algumas semanas de pressão constante e editoriais de imprensa mordazes, a história não vingou e outras manchetes de noticias se destacaram para distrair a população volúvel do Malawi de 15 milhões de cidadãos.

Felizmente para os malawianos desabrigados, alguns ativistas anti-sem-abrigo têm se revelado imune à apatia resultante.

A assistência cristã e agência de desenvolvimento, a Tearfund, é um desses ativistas. A Tearfund trabalha de mãos dadas com um número de parceiros em todo o Malawi. Tem trabalhado para garantir que o problema dos sem-abrigo mantenha o foco que tão crucialmente merece.

Nelson Mkandawire, diretor do Clube da Criança Chisomo e parceiro da Tearfund, teme que o problema humanitário ocasionado pela condição sem-teto está ficando pior a cada ano que passa.

"A crise alimentar não poderia ter vindo no pior momento", explica ele. "Sem comida em casa, muitas pessoas, especialmente crianças, foram forçadas a mendigar nas ruas. Para muitos, era a única opção."

Tão desesperada foi a crise que o Clube da Criança Chisomo informou sobre um aumento de 150% no número de crianças invadindo ruas do Malauí.

"Vimos cerca de 40 crianças novas vindo para as ruas a cada mês, e em dezembro esse número dobrou", lembra Mkandawire. "Esses números só incluíram crianças desacompanhadas com menos de 14 anos de idade. Se você incluísse crianças mais velhas e também aquelas acompanhadas dos pais que mendigam durante o dia e vão para casa à noite, a verdadeira imagem seria muito pior."

Sem surpresa nenhuma as ONGs temem que o aumento do número de pessoas nas ruas faça perpetuar o velho ciclo vicioso de aumento proporcional no abuso sexual e, posteriormente, em HIV / AIDS.

"É inegável. Uma vez na rua as pessoas são vulneráveis ao abuso sexual. Enquanto lutando desesperadamente pela sobrevivência são muitas vezes atraídas pela promessa de dinheiro em troca de sexo. Isso, inevitavelmente, aumenta casos de abuso sexual e, posteriormente, HIV / AIDS. "

O caso todo se torna irremediável pelo fato de que Malawi continua a ser um dos dez países mais pobres do mundo, com mais de um terço da população analfabeta,  e com uma expectativa de vida em volta dos 47 anos de idade. Com o aumento da prevalência de HIV / AIDS, estima-se que mais de meio milhão de crianças são órfãs.

Os ativismos locais e os esforços do governo para conter o problema dos mendigos de rua do Malawi tem tido mais dificuldades, pelo fato de que a maioria dos sem-teto agora consideram mendicância uma opção mais viável e lucrativa do que as outras oferecidas.

"Algumas pessoas pensam que dar dinheiro aos sem-teto lhes ajuda, mas isso prejudica o nosso objectivo, que é reintegrá-los à sociedade", Jolyne Kululanga, o Oficial de Recrutamento de vendedores dos escritórios The Big Issue em Lilogwe confidencia. "Os pais já não têm autoridade sobre seus filhos, porque podem facilmente obter dinheiro da mendicância. Outros pais incentivam suas crianças a mendigar, porque essas recebem mais do que os adultos."

Para matar dois coelhos com uma cajadada só as ONGs como a The Big Issue têm tentado sensibilizar o público para o melhor uso de seu dinheiro, para não incentivar a mendicância, mas sim para inspirar uma reabilitação dos mendigos através de esquemas empreendedores mais ortodoxos.

"Nós desaprovamos a mendicância", Kululanga reafirma. "Como diz o nosso lema, nós encorajamos 'trabalhar, não mendigar.' Nossos vendedores estão expressamente proibidos de mendicância. Tentamos sensibilizar o público a nos apoiar comprando as revistas, em vez de dar dinheiro diretamente para eles. Desta forma, o público apoia uma boa causa, e ao mesmo tempo, capacita os beneficiários. "

Vendedores da revista The Big Issue são pagos por exemplares vendidos, retendo 50% da venda do produto.

A abordagem da The Big Issue tem sido imitada por outras ONGs. Como por exemplo a Tikondane, que insta os membros do público a assumir uma posição pró-ativa no combate à condição sem-teto, ao invés de simplesmente doar dinheiro para qualquer mendigo que encontrar.

Tais soluções simples, porém orientadas ao empoderamento, poderiam precisar de um esforco constante para atingir os seus objetivos.

Mas ninguém no seio da comunidade das ONGs duvida que eles poderiam ser o antídoto perfeito para o perigoso flagelo dos sem-abrigo que tem devastado Malawi.

 

Traduzido por: Rosa Almeida

 Other Language Versions

SNS logo
  • Website Design