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Refugiados afegãos voltam ao seu país

 IPS 13 July 2019

As previsões são de que 130 mil afegãos refugiados no Paquistão voltem este ano para sua terra natal, duplicando o número de 2009. (810 Words) - By Ashfaq Yusufzai

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Porém, não é apenas a nostalgia que explica este fenômeno. Também existe a discriminação. Muitos dos refugiados dizem que os paquistaneses - tanto os funcionários como os cidadãos comuns - deixaram claro que não são bem-vindos, e tornam suas vidas cada vez mais difíceis. "O governo faz tudo para hostilizar os refugiados afegãos", disse Dost Moahmmad, reconhecido líder de afegãos que vivia no acampamento de refugiados de Shamshalo, em Peshawar, perto da fronteira paquistanesa com o Afeganistão. "Somos pessoas pobres e a comunidade internacional não deveria" nos abandonar, acrescentou.

Jamila Bibi, de 44 anos, teme que seus filhos morram de inanição. Segundo ela, logo terá de mendigar. Antes "trabalhei com empregada doméstica. Mas agora as comunidades locais evitam oferecer trabalho às mulheres afegãs", acrescentou. Em 1979, a invasão soviética no Afeganistão desatou a saída de mais de cinco milhões de afegãos para o Paquistão, que resistia em recebê-los. Até três anos atrás, eram 24 acampamentos alojando esses refugiados, mas foram fechados pelo governo paquistanês quando a comunidade internacional retirou seu apoio.

Dados da Organização das Nações Unidas revelam que, desde 2002, mais de 3,5 milhões de afegãos refugiados no Paquistão voltaram ao seu país. Espera-se que este ano outros 130 mil façam o mesmo, sob o programa de repatriação voluntária impulsionado pela ONU. Esse número duplicaria o registrado em 2009. Não é nenhum segredo que o Paquistão, que assinou a Convenção das Nações Unidas sobre o Estatuto dos Refugiados, de 1951, não se entusiasma em receber os refugiados por muito tempo.

Por outro lado, o país tem um acordo tripartite com o Afeganistão e o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur) que assegura a permanência dos refugiados afegãos no país até dezembro de 2012. A Autoridade Nacional de Bases de Dados e Registros do Paquistão, que tem ajuda financeira do Acnur, registrou cerca de dois milhões de refugiados afegãos em 2007.

Segundo a ONU, o Paquistão ainda tem 1,3 milhão de refugiados afegãos registrados. A maioria vive em Khyber Pakhtunkhwa, que antes se chamava Província da Fronteira Noroeste, mas também estão nos centros urbanos do país. Um porta-voz do Acnur em Peshawar disse que os refugiados já foram informados sobre a extensão de sua permanência legal no Paquistão, desde que possuam cartões de registro. "Não vamos obrigá-los a voltar ao seu país", disse à IPS Najamuddin Khan, ministro federal para as regiões fronteiriças.

O ministro da Informação de Khyber Pakhtunkhwa, Mian Iftikhar Hussain, disse não ser verdade que os afegãos estejam sendo maltratados. "Sofremos devido à presença dos afegãos, mas não tomaríamos nenhuma medida contra os que têm documentos válidos para permanecerem no país", afirmou. Com a palavra "sofrendo", Hussain se referiu aparente e parcialmente à percepção popular de que os refugiados afegãos ocupam muitos postos de trabalho que seriam dos cidadãos locais, pois aceitam salários menores. E disse também que "não permitiremos que os criminosos fiquem aqui".

"Temos estatísticas mostrando que 45% dos crimes são cometidos por afegãos", afirmou o oficial de polícia Mohammad Rafiq. "Eles cometem crimes e fogem para o Afeganistão, onde não podem ser encontrados", acrescentou. Os delitos supostamente cometidos por refugiados afegãos vão desde roubos até assassinatos. Entretanto, muitos sentem que são castigados, mesmo sem cometer nenhuma falta. Dizem que, desde que foram fechados os acampamentos de refugiados em 2007, a polícia os hostiliza constantemente em relação aos seus documentos.

A maioria dos refugiados é obrigada a viver em barracos improvisados e aceitar qualquer trabalho para poder comer. Rehma Shat, por exemplo, disse que os US$ 55, que ganha mensalmente como guarda noturno na casa de uma família, não dá para manter a sua família. "Meus filhos vendem verduras para complementar a renda", acrescentou. As três filhas de Mirza Mohammad - Samia, de dez anos, Rabia, de oito, e Jaweria, de seis - a acompanham cada vez que vai à vizinhança recolher o lixo, ao amanhecer. "Algumas pessoas dão dinheiro e o pão e o gelo que tiverem. Outras não", disse a descalça Rabia.

Apesar das dificuldades da vida dos refugiados no Paquistão, muitos afegãos dizem que, se puderem escolher, preferem ficar no país. "Não podemos ir por causa do caos, da falta de emprego, da má qualidade do ensino e dos centros de saúde em nosso país", disse Shah. O taxista Jalawan Khan, de 35 anos, acrescentou. "O governo deveria ter pena da gente. Viemos fugindo de sucessivos anos de guerra, fome e seca".

Alguns membros da família de Khan voltaram ao Afeganistão. Ele envia parte de sua renda para a mãe, que agora vive em sua província natal afegã de Khost. Porém, para Khan está cada vez mais difícil dar pelo menos duas refeições diárias para a mulher e os filhos. "Meu pai tinha um bom negócio de tapetes no acampamento de Kacha Garhi. Mas agora a situação é extremamente ruim. De todo modo, fiquei porque quero educar meu filho aqui, em Peshawar", afirmou.

 

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Originally published by Inter Press Service. © www.streetnewsservice.org

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