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A pendência da América Latina

 IPS 19 July 2019

A questão ambiental se mantém em segundo plano na América Latina e no Caribe, apesar de sua relação com a persistente pobreza e as travas para o desenvolvimento econômico, segundo o GEO-ALC3, terceiro informe em uma década sobre a região, divulgado ontem pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). (848 Words) - By Humberto Márquez

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Dezenas de especialistas da região foram convocados pelo Pnuma para elaborar o informe "Perspectivas do Meio Ambiente: América Latina e Caribe", o GEO-ALC3, seguindo a trilha de trabalhos semelhantes apresentados em 2000 e 2003.

"Nossa intenção é dar ideias para o desenvolvimento humano com apoio à erradicação da pobreza, não para formular uma política ambiental, mas para incorporar a dimensão ambiental às políticas públicas", disse à IPS, do Panamá, a mexicana Mara Murillo, diretora-adjunta do Pnuma na região e responsável pela apresentação do informe. O meio ambiente é "tido como algo já dado, à margem das contas nacionais, e se exige um esforço de internacionalização não apenas do valor dos ecossistemas como também do que proporcionam em ar limpo, água clara, alimento e ciclos hidrológicos para comunidades que se preparam para sair da pobreza", destacou Mara.

Para o especialista venezuelano Antonio De Lisio, o ambiente ainda "é visto na região com critérios tradicionais, de simples conservação. Não é vinculado com as políticas de superação da pobreza, que é o grande tema da América Latina e do Caribe", disse à IPS este professor, diretor do Centro de Estudos do Meio Ambiente da Universidade Central da Venezuela.

O GEO-ALC3, ao examinar as modalidades de desenvolvimento na região, assinala que "o desafio mais importante é a pobreza", já que, ainda, "35% da população (189 milhões de pessoas) é pobre, enquanto 14% está em situação de indigência".

Segundo o informe, historicamente "a região se configurou como fornecedora de alimentos, matéria-prima e reserva de recursos", modelo que gerou "crescimento econômico, desintegração social e degradação ambiental". Nesse contexto, "em muitos países, a gestão ambiental continua sendo frouxa para permitir a exploração dos recursos naturais e ainda resulta ser insuficiente para manejar o grande passivo bem como as tensões ambientais emergentes da região", diz o texto.

"Os países fizeram mais propaganda de seus recursos do que trabalharam por um modelo de desenvolvimento sustentável e próprio que permita superar a pobreza", afirmou Antonio. "O resultado foi o privilégio durante muito tempo da vocação exportadora de petróleo na Venezuela, cobre no Chile ou produtos da agricultura primária no Paraguai", explicou. O informe do Pnuma coincide em que a região privilegia a inserção no comércio internacional mediante a exportação de recursos naturais e manufaturas com escasso ou nenhum processamento. Afirma que 73% das exportações são bens primários.

Ao percorrer esse caminho evitando as variáveis ambientais, a região viu aumentar sua população em 51% no período de 40 anos, especialmente em áreas urbanas, que crescem desordenadamente. Isso também ajudou a aumentar a demanda de água em 76% em apenas 15 anos e a quadruplicar a de energia elétrica nos últimos 35 anos. "A urbanização acelerada e sem planejamento pressupõe uma das tarefas urgentes na região, bem como a perda de florestas - embora a taxa de desmatamento tenha começado a baixar - e sua vulnerabilidade diante da mudança climática", disse Mara.

O documento recorda que na região estão seis dos 17 países mais megadiversos do mundo, mas "esta imponente diversidade está se extinguindo pelo desmatamento e pela destruição do habitat que abriga uma grande quantidade de espécies". Os cientistas também alertam sobre a possibilidade certa de cruzar a linha sem volta em termos de consumo dos recursos do planeta. Dizem ser fundamental que "todos os setores da sociedade compreendam a importância deste limite para avaliar quando retroceder para operar dentro dos limites seguros".

Ao apresentar os cenários possíveis, o estudo exorta os tomadores de decisões a "sistematizarem a aplicação de um enfoque integrador, para dar respostas mais adequadas aos problemas socioeconômicos e ambientais no contexto das agendas regionais e nacionais de desenvolvimento sustentável". Os especialistas encarregados dessa pesquisa destacam, por exemplo, que "o investimento em sustentabilidade ambiental e social deve ser visto como essencial para o desenvolvimento econômico".

Por outro lado, alertam que alguns esforços para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e outras metas ambientais "têm efeitos contraproducentes". Garantir a sustentabilidade do meio ambiente é o sétimo dos oito ODM que os governos do mundo fixaram em 2000 na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, com prazo até 2015 e com base em indicadores de 1990. Uma das metas é incorporar os princípios do desenvolvimento sustentável nas políticas e nos programas nacionais.

O GEO-ALC3 dá como exemplo de ação contraproducente o aumento da produção de biocombustíveis em grande escala e com fins preferencialmente comerciais, competindo pelos recursos de terra e água disponíveis e, por isso, com as noções de segurança alimentar e proteção da biodiversidade. A proposta de reorientar os modelos de crescimento "deve levar em paralelo os objetivos de reduzir a pobreza e criar empregos sustentáveis, utilizando a mão-de-obra local, a inovação local e o uso eficiente de energia, para que o emprego potencialize nossa habilidade como povo e nossa capacidade de conservação", ressaltou Antonio.

Mara insiste no caráter utilitário que desejam para o novo informe GEO. "Que seja utilizado pelos que formulam políticas, que tomam decisões, pelos acadêmicos, pelas organizações não governamentais e pelo cidadão comum, que pode fazer muito com seu padrão de consumo de água ou de uso eficiente da energia", afirmou.

 

Originally published by Inter Press Service. © www.streetnewsservice.org

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