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Distâncias conspiram contra maternidade segura

 IPS 26 July 2019

Na comunidade de Ndvwabangeni, na Suazilândia, Margaret Zondo, a quem todos chamam afetuosamente de “Gogo”, exerce a medicina tradicional. (690 Words) - By Mantoe Phakathi

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Além de tratar os doentes, faz partos. "Também dou medicamentos tradicionais para as grávidas para que seu trabalho de parto não seja muito prolongado", disse à IPS. Ela sabe que o governo desestimula este tipo de prática. Porém, ela e seus colegas são aproximadamente 11 mil, segundo a Associação de Médicos Tradicionais da Suazilândia.

Todos eles são orientados a enviar as grávidas para centros de saúde para receber cuidados durante o parto, bem como antes e depois do nascimento. "É impossível rejeitar alguém que está em trabalho de parto quando se está preparada para ajudar", disse Margaret. "Agora ajudo principalmente em casos de emergência", acrescentou. Margaret se queixou de que sua comunidade está muito longe do centro de saúde mais próximo: o hospital governamental Piggs Peak.

Foram fechados os pavilhões do hospital que abrigavam parturientes, o que deixou muitas sem outra opção a não ser dar à luz em suas casas. Segundo o Estudo de Saúde Demográfica de 2007, cerca de um terço das mulheres da Suazilândia dão à luz em suas casas. Este país africano tem uma das mortalidades maternas mais altas do mundo: 589 para cada cem mil nascimentos vivos.

Phumzile Mabuza, gerente de programa da Unidade de Saúde Reprodutiva no Ministério da Saúde, disse que, embora a grande quantidade de mulheres que morre durante o parto não possa ser atribuída apenas ao fato de este ser realizado em casa, de todo modo isto é motivo de preocupação. "A maioria é assistida por médicas tradicionais. Por isso, o governo está se associando com elas, para nos ajudar a conseguir que a maior quantidade possível de mulheres dê à luz em centros de saúde", disse Phumzile. Entretanto, como esses centros ficam muito distantes, as médicas tradicionais não podem enviar para lá as emergências com a rapidez necessária.

O subdiretor da Fundação Elizabeth Glaser de Aids Pediatria-Suazilândia, se mostrou decepcionado com o fechamento dos pavilhões. "Pedimos urgência ao governo para reabri-los", disse à IPS. A Fundação é uma organização não governamental que ajuda as grávidas que vivem com HIV, vírus causador da aids, a terem acesso a serviços de prevenção da transmissão do vírus de mãe para filho em centros de saúde pública.

Ao problema se soma o fechamento das alas de maternidade nas clínicas, que eram muito mais acessíveis para as comunidades. Em alguns casos, as mulheres, que não conseguem chegar ao hospital a tempo, dão à luz em ônibus e na rua. Phumzile esclareceu que o fechamento dos pavilhões de espera ocorreu devido à falta de recursos para mantê-los em funcionamento, mas há planos de reabri-los. "Estamos renovando, pois não eram adequados", afirmou.

Outro fator foi a criminalidade. "Antes, nas clinicas tínhamos enfermeiras de plantão que ajudavam nos partos noturnos, mas o governo teve que acabar com isso porque muitas foram feridas por criminosos. Eles chegavam fingindo acompanhar uma mulher grávida, e roubavam equipamentos do governo", disse Phumzile. "Agora o governo trabalha com as comunidades sobre como dar maior segurança às clinicas", acrescentou.

Algumas médicas tradicionais são reticentes em abandonar seu papel nos partos. "Fizemos cursos de capacitação para incentivá-las a enviar as grávidas aos hospitais", disse Nhalavana Maseko, presidente da Associação de Médicos Tradicionais. A população deste país "cumpre rituais em relação aos recém-nascidos, mas agora a maioria de nossas integrantes está começando a ver melhor os problemas, graças aos cursos do Ministério da Saúde", disse Nhalavana.

A disposição dos médicos tradicionais para trabalhar junto com os serviços de saúde também foi estimulada pelo aumento das complicações que presenciam. As hemorragias são o problema mais comum, e devido a elas morrem algumas mulheres, disse Margaret. Phumzile atribuiu o aumento nas complicações à grande quantidade de doenças existentes no país.

A Suazilândia tem a maior prevalência mundial de HIV, de 26% da população entre 15 e 49 anos. Também são feitos esforços para melhorar a atitude das enfermeiras, desenvolvendo suas habilidades de comunicação interpessoal. "Nas comunidades onde estivemos para fazer com que as grávidas prefiram os hospitais, as pessoas se queixam das atitudes das enfermeiras", disse Phumzile.

 

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Originally published by Inter Press Service. © www.streetnewsservice.org

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