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Vozes que sobrevoam o desastre

 IPS 15 November 2019

“As rádios comunitárias no Haiti têm um papel indispensável nas catástrofes e com relação às mulheres, pois podemos identificar quais são as necessidades mais urgentes das famílias para reconstruir o país”, afirmou a representante de uma destas emissoras. Marie Justine Gurlein, da Rádio Refraka do Haiti, contou sua experiência durante uma mesa-redonda que reuniu mulheres de rádio em situações de conflito e emergência, durante a 10ª Conferência Mundial de Rádios Comunitárias, que acontece em La Plata, na Argentina, esta semana. (742 Words) - By Marcela Valente

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É a primeira ocasião em que a reunião, organizada pela Associação Mundial de Rádios Comunitárias (Amarc), acontece em um país sul-americano. A entidade tem mais de quatro mil membros nos cinco continentes e da conferência mundial participam 400 emissoras comunitárias, convocadas sob o lema "aumentar sua eficácia no êxito de uma justiça social maior". Por meio de paineis, seminários, mesas-redondas, teleconferências, vídeos e assembleias, os autodenominados "radialistas" analisam como contribuir para a redução da desigualdade, a mitigação da mudança climática e para uma maior gestão frente aos desastres.

Marie Justine se referiu ao terremoto de 12 de janeiro que devastou o Haiti e causou mais de 222.500 mortes. A essa catástrofe agora somaram-se o furacão Tomás e uma epidemia de cólera. "As mulheres têm um papel fundamental em manter unida a família nestes conflitos", destacou. Para melhorar sua função, prosseguiu Marie Justine, as rádios comunitárias devem intercambiar conhecimentos com seus colegas de outros países do Sul em desenvolvimento. Precisam de maior capacitação em temas de gênero e aprender espanhol, "para trabalhar melhor na região", disse em francês.

Da mesa participaram também outras mulheres de rádios de comunidades que vivem em situações críticas. Suyapa Banegas, da Rádio Marcala de Honduras, contou à IPS sua experiência durante o golpe de Estado cívico-militar de junho de 2009 em seu país. "Sofremos repressão, perseguição e ameaças de fechamento por parte do Exército", disse. A Rádio Marcala, que deu visibilidade às mulheres hondurenhas, está localizada no município de mesmo nome, 180 quilômetros a oeste de Tegucigalpa, em uma região habitada pela etnia lenca.

Suyapa é diretora de programação da rádio que transmite entre 5h e 22h. "Diante de tanta desigualdade, sentimos a necessidade de mudar as coisas, mas, sem recursos, o único caminho é um meio de comunicação", afirmou. O problema é que em Honduras, como em outros países da América Central, as frequências são leiloadas. "Quem paga mais, leva. Até nisso está bem acentuada a desigualdade", acrescentou.

Entretanto, as mulheres da região conseguiram um atalho para legalizar a operação. A emissora está registrada como comercial, apesar de seu objetivo não ser ganhar dinheiro, mas dar voz aos que não a têm. Desde então, conseguiram colocar na agenda pública temas como acesso das mulheres a terra, um processo do qual estiveram marginalizadas tradicionalmente, e também a questão dos direitos sexuais e reprodutivos.

Na mesa-redonda também apresentaram seus casos mulheres de Argentina, Bolívia, Chile, Moçambique, Filipinas, Nepal e Uganda. Benilde Nhalevilo, da Rádio Forcom de Moçambique, destacou os efeitos que ainda tem sobre as mulheres a guerra civil que afetou seu país entre 1977 e 1992. "As rádios comunitárias têm responsabilidade de convocar o Estado para falar delas", afirmou. Perla Wilson, da chilena Rádio Terra, contou à IPS sobre o papel durante a emergência de uma emissora como a sua, a primeira de caráter feminista da América Latina, nascida no final da ditadura a partir de uma ideia da organização não governamental La Morada.

A Rádio Terra abriu um espaço para a participação das mulheres durante a transição democrática, colocando na agenda pública temas como violência de gênero ou sexualidade, e também acolheu outras vozes marginalizadas. A rádio transmitiu o primeiro programa feito por uma minoria homossexual e o primeiro realizado por indígenas mapuches em seu próprio idioma. Quando, em 27 de fevereiro deste ano, o Chile sofreu outro destruidor terremoto, seguido de um tsunami, a Rádio Terra foi ao ar apesar dos danos sofridos, como muitas outras emissoras que ainda esperam um reconhecimento semelhante ao que têm outros meios de comunicação.

"As comunicações entraram em colapso no Chile, mas as rádios, em geral, continuaram funcionando e as comunitárias tiveram uma função social, fornecendo serviços aos afetados e tentando restabelecer um diálogo em uma sociedade fragmentada", afirmou Perla. A radialista ressaltou que, enquanto a televisão apenas registrava os fatos mediante imagens repetitivas, as rádios comunitárias, com uma enorme precariedade de recursos, se colocaram a serviço das vítimas da tragédia.

Originally published by Inter Press Service. © www.streetnewsservice.org

 

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