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Artistas compartilham liberdade musical com jovens sem-teto

 Street Roots (USA) 25 November 2019

Estes músicos parecem prontos para qualquer dos locais de prática musical de Portland. Jeans rasgado. Tatuagens. Cabelos longos ajeitados, ou cabelos curtíssimos assimétricos. Unhas pintadas. Jóias balançando. Paletós falsificados e folgados, e tênis de skate. Mas esta noite eles não estão aqui para gravar um álbum ou aperfeiçoar suas atuações para ganhar uma porcentagem do cachê. Pelo contrário, eles são um grupo de jovens desabrigados. (1756 Words) - By Devan Schwartz

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 The Artist Mentorship Program. Photo: Ken Hawkins

O zumbido elétrico dos amplificadores predomina no pequeno espaço do estúdio. Um baterista conta até três e começa a tocar um ritmo. O outro baterista hesita só por um momento e se junta a ele, tocando o som profundo dos tons e um extra de hi-hat. Pouco tempo depois, as guitarras base e solo se juntam ao som e ao baixista. Os músicos se comunicam com os olhos ou com breves sinais verbais quando precisam fazer um solo ou quando precisam mudar o tom da música.

Eles tocam por algumas horas antes dos abrigos de Portland se abrirem para a noite. É apenas uma noite comum no AMP (Programa de Mentoria do Artista) - se é que tal noite é considerada comum.

Adam Sherburne é quem lidera esse trabalho. Ele é um mentor voluntário que tem estado com essa organização sem fins lucrativos desde o começo, há cinco anos atrás, ao leste de Portland, depois de ter deixado São Francisco. Ele toca uma das guitarras e está sempre circulando. Com muita energia, ele grita com todo mundo para continuar em frente e manter o projeto, mesmo havendo desorganização ou  obstáculos. Sherburne vê os meus pés batendo ritmicamente enquanto faço minhas anotações.

"Aqui", diz ele, passando duas baquetas, com uma intensidade e cabelo estilo militar igual do Henry Rollins. "Por que você não escreve com estes?"

Eu componho no meu caderno e tento tocar com o ritmo das baterias. Os jovens já relaxam imediatamente. Eu vejo que no lugar de simplesmente assistirem, já se acostumaram com todos, e participam da música. Este não é um desempenho artístico no sentido tradicional, é mais como um diálogo musical inclusivo. Inclusão é um elemento principal do caráter do AMP, e fortemente influenciado pelas próprias experiências musicais de Adam Sherburne.

Como um músico antigo, profissional e itinerante, com base consolidada na região de São Francisco (EUA), Sherburne oferece muitas vantagens a essa organização básica e sem fins lucrativos. Como músico, ele vendeu milhares de álbuns e viajou pelo mundo. Ele se aperfeiçoou, mesmo contra uma indústria de música que só queria saber de lucros. Ao invés de ter interesse no seu senso genuíno de musicalidade (que faz unir as pessoas), ele encontrou uma indústria determinada a fazer os artistas se separarem dos espectadores. Em vez disso, Sherburne procurou caminhos que trabalhassem a favor de participação equitativa e auto-expressão, e se opôs a seguir hierarquias sociais.

Adam Sherburne trabalha agora com a NAFY (Novas Avenidas para a Juventude) como assistente social. Ele ajuda a recrutar participantes para as aulas e seções de ensaio do AMP. Durante o período do programa ele usa diferentes instrumentos, a fim de demonstrar e facilitar a arte musical. No AMP a criação valiosa inerentemente da música é dissociada de noções de curto prazo, de sucesso, da necessidade de 'progresso' ou de produtos de entrega. Como um princípio duplo, Sherburne explica o que o AMP oferece:

"Existem as autoridades da tradição musical dessas, ainda existentes, escolas de programas musicais", diz ele. "Que é um sistema bancário que força crianças, com bastante conhecimento musical, a ter aulas e apresentações, para recitar para outras pessoas - coisas desse tipo. Bom, nós temos dado essas aulas. Nós temos oferecido o espaço para as bandas. Mas simultaneamente e paralelo a isso, nós produzimos nada e avançamos baseados num processo anti-pedagógico - com encontros de adultos ambíguos e dialéticos. Os adultos com os seus egos e conhecimentos, e os jovens, com os seus interesses e experiências."

"Nós não fazemos exigências, mas sim facilitamos a comunicação básica com os instrumentos que atraem as pessoas que vêm de diferentes estilos artísticos."

Então, quem são os participantes de 16 a 24 anos de idade que se apresentam semanalmente no programa AMP do centro da cidade? São eles músicos inexperientes querendo se tornar astros do rock? Jovens que procuram apenas uma saída e uma possibilidade de auto-expressão? Os que tocam um pouco de música e procuram algo para fazer até que os abrigos se abram? Com o risco de parecer um teste padronizado, a resposta é tudo o que precede. Entre cinco e vinte jovens se apresentam todas as noites no programa.

Ivan tem 19 anos de idade e frequentemente fica no Outside-in. Ele tem a ambição de cantar e fazer música para se apresentar a multidões. Ele diz que já teve bandas e ouviu sobre o programa há dois anos atrás, através da NAFY. Além das seções de música, todas as segundas-feiras à noite (e também nas quintas-feiras), Ivan tem trabalhado diretamente com Adam Sherburne.

"Eu tenho ido lá para ficar bom na guitarra, e eu tenho tocado um pouco de bateria também", diz Ivan. "Eu comecei brincando e pensei: isso é divertido."

No decurso de uma única noite, Ivan fica entre guitarra, bateria e microfone. Apesar de que ele se empenha para o seu próprio estilo musical, ele pretende formar uma banda de death metal - ele encherga o complemento que vem do talento e estilo dos outros músicos.

"É bom porque assim eu posso perceber os estilos diferentes dos outros. Porque várias pessoas podem escutar a mesma música e todos eles vão tocar apenas um pouquinho diferente ... é legal ver como isso funciona quando você toca com pessoas de estilos diferentes. "

Em contrapartida, há um jovem chamado Michael, um participante meigo e meticuloso. Ele é o mais novo no AMP e no violão. Ele diz que tocou um pouco de piano quando era pequeno, mas agora ele está longe da família e ficando no abrigo da juventude Porchlight. Ele está aprendendo acordes e algumas músicas básicas com o Will Kendall, fundador e diretor do programa atual.

"É legal demais", diz Michael sobre a experiência. "Eu achei estranho que há música por toda a parte aqui.É como um andar inteiro só de música. É muito legal. É algo para fazer, aprender e desenvolver. Eles têm o que você precisa para aprender um instrumento. "

Will Kendall é descontraído, o oposto da energia dionisíaca de Adam Sherburne. De dia, Kendall é o gerente do programa de empregos para a juventude da NAFY, em parceria com Ben e Jerry. À noite, ele normalmente segura as pontas na AMP, numa sala mais quieta. Lá os jovens trabalham com instrumentos acústicos, desenvolvem faixas nos computadores doados ou fazem artes visuais, dos quais muitos enfeitam as paredes.

Kendall fala sobre o primeiro esforço feito para captação de recursos em Portland, no período de transição do AMP, de São Francisco para Portland. Foi sobretudo uma festa de poker. Conseguiram arrecadar 400 dólares. Isso foi uma soma modesta, mas incrivelmente, tudo o que se precisou para iniciar; isso e uma firme convicção na missão da organização.

"Para realmente se valorizar a auto-expressão - sendo esta tão importante para o desenvolvimento dos jovens - uma parte crucial da reabilitação de muitos desses jovens que vêm de situações bem traumáticas", Kendall diz, e observa que esse elemento estava faltando na música, quando ele chegou pela primeira vez na região de Multnomah.

Embora eles tenham mudado os espaços e expandido as suas ofertas, o diretor do programa ainda cita um orçamento anual de cerca de apenas oito mil dólares. Grande parte desse custo operacional racionalizado pode ser atribuído a uma equipe de voluntários, com mentores dedicados. Kendall diz, "a maioria têm estado aqui por um mínimo de três anos."

Para Kendall, os mentores fornecem um modelo tangível para os jovens de como crescer e amadurecer, sem comprometer importantes partes de suas personalidades.

"Os jovens podem engajar com músicos profissionais que são, penso eu, provavelmente os melhores mentores que você pode encontrar", diz Kendall. "Porque é uma orientação concreta, nós temos ex-roqueiros punk que ainda têm aquele lado punk-rock, mas que são responsáveis, estão pagando suas contas e estão livres das drogas. E isso dá aos jovens um modelo para aspirar. "

Os jovens do AMP, com o seu foco e dedicação à música, são muitas vezes inspiradores, mas as tensões subjacentes da adolescência e da vida de rua continuam. Tendo ficado muito velho para serviços para a juventude, um participante recentemente partiu para o Arizona, um lugar incerto oferecendo apenas uma perspectiva de trabalho incerto. Outros falam desanimadamente sobre a concorrência pelas camas (de número limitado) do abrigo Portland.

Numa noite, na sala quieta, eu falei com um jovem chamado Thor, com um estilo moicano. Ele começou na AMP há algumas semanas para tentar superar sentimentos fortes de ódio e violência.

"Eu me via como se não fosse eu", diz Thor. Ele se sente bem por poder canalizar as suas emoções através de tocar um instrumento. Embora ele acha que os outros não entendem que o AMP não exige experiência anterior.

"Eu conheço um monte de gente que pensa: 'banda não é minha praia.' E eu falo: 'você está perdendo.' Eles que perdem com isso."

Outra parte importante do AMP é uma orientação que dissolve noções tradicionais das relações entre alunos e professores. Teresa, uma mentora de três anos, trabalha com o Thor em arte visual, durante a sua pausa da prática de música. Ela observa, "É só ensino e aprendizagem. Eu nunca estudei arte na escola e por isso esta é uma introdução. "

Como visitante do AMP, é interessante também ver o surgimento de captação de recursos e negociabilidade. A cada descoberta musical e a cada música que soa como uma boa faixa num álbum, é difícil ignorar o desejo por um produto bem acabado, ou por um resultado mensurável, que poderia ser entregue aos que deram o apoio financeiro. Esses instintos são naturalmente limitados no seu âmbito e representam uma abordagem metódica que o AMP parece gostar de evitar. Enquanto que os mentores do AMP são bem cientes de que alguns de seus participantes podem querer buscar um aprimoramento musical tangível, ou sucesso financeiro com o seu trabalho, estas questões podem também funcionar contra as suas boas intenções. O foco é sobre as relações forjadas entre os jovens, os mentores e a música.

"Nós estamos aqui por eles, e tudo o que eles criam é deles. Isso é muito importante, muito valioso ", diz Sherburne.

"Se não é bonito, é feio ou doloroso, não importa, porque isso é arte, e arte é importante", diz Sherburne. "E é importante ficar conectado com a arte. Pois eles podem ter uma relação saudável com eles mesmos, até que eles deixem a sua condição de jovem sem-teto. "

No final da noite eles guardam os seus instrumentos. As baquetas voltam para os galões laranja. Os amplificadores das guitarras e dos baixos são desligados. O microfone fica quieto. O sussurro do ar frio do centro de Portland assusta um pouco à noite, pois os jovens discutem qual abrigo podem ir, ou se vão voltar para tocar daqui a alguns dias.

 

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