print logo

Cola curda para quebra-cabeça iraquiano

 IPS 29 November 2019

O muito esperado acordo para compartilhar o poder no Iraque deixou evidente uma queda da influência política dos Estados Unidos e de seus aliados regionais, em troca de um fortalecimento de atores políticos locais, em particular os curdos. (914 Words) - By Mohammed A. Salih

Share

Em questão de dias, as conversações iniciadas pelos curdos conseguiram o que Washington, Teerã e seus respectivos aliados não conseguiram em oito meses de intensa diplomacia: convencer os líderes de quase todos os blocos parlamentares iraquianos a se sentarem juntos à mesa pela primeira vez desde as eleições de março.

O acordo resultante parece que acabou com a paralisação política no país, pelo menos provisoriamente. No entanto, o maior bloco legislativo, o do partido sunita Al Iraqiya, parece que ainda está insatisfeito com os poderes que terá segundo o pacto. O partido do ex-primeiro-ministro Ayad Allawi, ganhou as eleições parlamentares de março, com 91 cadeiras, mas não suficientes para conseguir a maioria de 163 assentos para formar um novo governo.

A Coalizão de Estado e Lei, do atual primeiro-ministro, Nouri Al Maliki, ficou atrás com 89 cadeiras, e os curdos em quarto com 57, atrás de uma coalizão em sua maioria de grupos religiosos xiitas com 70 cadeiras. Depois das eleições, os curdos não só foram os que de fato decidiram quem governaria o país, como se converteram na cola que pode aglutinar o intrincado quebra-cabeças político iraquiano. Isto jogou por terra as suspeitas dos partidos árabes iraquianos e de vários países da região, que em geral acusavam os curdos de terem intenções separatistas e de não se preocuparem com o caos que sofriam as áreas não curdas do Iraque.

"A visão curda das conversações não esteve atada à agenda de nenhuma potência regional nem estrangeira, e não se destinou a afirmar a hegemonia de nenhum país estrangeiro em particular sobre os iraquianos", disse Hemin Mirani, chefe do Instituto Curdo para Assuntos Políticos (Kipi), com sede em Irbil, capital da região curda iraquiana. "Em lugar de vagar pelas capitais dos países da região, o plano curdo era sentarem-se juntos no Iraque e resolver as disputas aqui mesmo. Tiveram um enfoque realista e equilibrado, e não favoreceram uma ou outra parte", acrescentou Hemin.

A dura recordação da minguante influência de Washington no Iraque veio, nada menos, dos curdos, muitas vezes considerados os mais próximos aliados dos Estados Unidos em território iraquiano. Os líderes do Curdistão resistiram firmes ao que qualificaram de "tremenda" pressão dos Estados Unidos, de seus aliados árabes regionais e da Turquia para que Ayad Allawi ocupasse a Presidência. O próprio presidente Barack Obama e seu vice, Joseph Biden, deram telefonemas pessoais para promover Allawi ao poder. No final, o curdo Jalal Talabani foi reeleito presidente por mais quatro anos.

"Com relação à Presidência, houve, de fato, dois tipos de pressão sobre nós, uma dos amigos norte-americanos e outra de outros partidos", disse Massoud Barzani, presidente do governo regional do Curdistão, em reunião com líderes de partidos curdos no dia 14. Washington dizia que "se o posto de presidente fosse dado a outro partido, o problema poderia ser resolvido. Porém, nossa posição era que isso afetaria não só os curdos, como todo o Iraque", acrescentou. Massoud afirmou que era um assunto de "direitos" e de "dignidade" os curdos ocuparem a Presidência, independente de seus números eleitorais.

Para o cargo de primeiro-ministro - no que é considerado orquestração por trás da cena do Irã - grupos xiitas liderados por Nouri Al Maliki formaram um bloco parlamentar maior do que o Al Iraqiya e garantiram esse cobiçado cargo. "O papel do Irã foi mais forte e mais visível do que o dos Estados Unidos. Os iranianos estarão mais felizes com o governo que será formado", disse à IPS o parlamentar Mahmoud Othman, veterano político curdo. O povo já não "segue a linha norte-americana", afirmou.

Desde a invasão em 2003, Washington não poupou esforços para deixar sua marca na formação do novo panorama político iraquiano e de uma nova classe governante. Entretanto, os eleitores foram deixando de lado algumas de suas opções. "Presenciamos a queda da hegemonia norte-americana sobre o Iraque dia após dia. Os Estados Unidos agora compreendem qual o seu peso no Irã e agem de maneira consequente", disse Hemin, do Kipi.

Nem todos os analistas concordam que a reeleição de Maliki represente um golpe aos interesses dos Estados Unidos no Iraque. Faisal Istrabadi, diretor do Centro para Estudos do Oriente Médio na norte-americana Universidade de Indiana, disse acreditar que Washington favorecia Maliki como parte de sua estratégia para se retirar do Iraque, mesmo isso supondo um fortalecimento da influência iraniana. Washington tem atualmente menos de 50 mil soldados no Iraque, que se dedicam a assessorar e treinar as forças de segurança locais. Espera-se que a retirada total ocorra no final do próximo ano.

"O governo Obama tenta forçar o que considera o caminho mais fácil para um novo governo iraquiano, inclusive se é pró-iraniano, não por estar entre os interesses nacionais dos Estados Unidos, mas porque permitiria que saíssem mais rapidamente do Iraque às vésperas da campanha para a reeleição", escreveu Faisal, no dia 17, no site Project-syndicate.org.

Faisal, com dupla cidadania iraquiana e norte-americana, foi um dos principais redatores da Constituição provisória do Iraque, em 2004, e representante permanente deste país na Organização das Nações Unidas. "Nisto, Obama segue o exemplo do ex-presidente George W. Bush, que fez a agenda eleitoral dos Estados Unidos ditar a política iraquiana", acrescentou.

Originally published by Inter Press Service. © www.streetnewsservice.org

 

SNS logo
  • Website Design