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Dinheiro insuficiente vai contra o combate à aids

 IPS 11 October 2019

O compromisso de doar US$ 11,7 bilhões para refinanciar o Fundo Mundial de Luta Contra a Aids, a Tuberculose e a Malária nos próximos três anos é insuficiente e ameaça reverter os avanços obtidos no combate a essas doenças. Esse compromisso foi assumido no dia 5, quando se esperava chegar aos US$ 20 bilhões nas campanhas contra essas três enfermidades infecciosas mais mortais do mundo. (806 Words) - By Aprille Muscara

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Essa diferença de US$ 8,3 bilhões "causará a morte de milhões de pessoas por doenças que de outro modo poderiam ser tratadas. Já não serão viáveis os ambiciosos programas por país, que poderiam ser a diferença entre a vida e a morte", disse Jennifer Cohn, assessora de políticas sobre HIV/aids da organização Médicos Sem Fronteiras. O Fundo Mundial, financiado por entidades públicas e privadas, dá dinheiro a diferentes países para que apoiem programas de tratamento e prevenção das três enfermidades.

Estima-se que estes programas salvaram cerca de 5,7 milhões de vidas, resultados que o diretor do Fundo Mundial, Michel Kazatchkine, disse não serem esperados nem mesmo há três anos. Mas devido ao subfinanciamento, Kazatchkine se preocupa com a possibilidade de os êxitos serem revertidos. Se a quantia comprometida agora é a última palavra dos doadores, não bastará nem para atender as demandas mais ínfimas para o próximo triênio e nem para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, ressaltou.

Para ampliar os programas do Fundo foram propostos três cenários de financiamento para o período 2011-2013. Cada quantia corresponde a diferentes calendários para o êxito dos objetivos de saúde. Se não se alcançar a soma mínima, os países não poderão expandir seus programas tão rapidamente como esperavam, por isso continuará morrendo gente, disse Kazatchkine. Inclusive agora, "há pessoas que morrem de doenças preveníveis e que podem ser tratadas. Esta é a realidade do mundo: tem gente sem acesso a cuidados médicos que morre por estas doenças, e isto é um escândalo", disse.

Mesmo que a escassez de fundos não elimine programas, o esforço para ampliar o trabalho do Fundo é considerado necessário para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, definidos em 2000 pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, tendo 2015 como data limite. O sexto deles é combater o HIV/aids, a malária e outras doenças, entre elas a tuberculose.

Os especialistas estimam que até 2015 pode-se conseguir redução de um terço nas mortes por tuberculose, menos naquelas causadas por cepas resistentes aos remédios. E também uma cobertura universal de mosquiteiros - para proteger contra os mosquitos que transmitem a malária - inclusive para 2012. O mais destacável é a perspectiva de pôr fim às mortes por malária nos próximos cinco anos. Se isto for alcançado, essa erradicação será um dos maiores triunfos contemporâneos em matéria de saúde.

Como o Fundo Mundial é a maior fonte multilateral de financiamento dos esforços contra as três enfermidades, funcionários da saúde e organizações não governamentais se preocupam com a eventualidade de a escassez de recursos para os próximos três anos colocar em risco as possibilidades de sucesso. Segundo Kazatchkine, se não houver mais dinheiro será preciso tomar decisões difíceis, que poderão afetar a saúde e o meio de sustento de milhões de pessoas.

Por exemplo, Carol Nawina Nyirenda disse que um país pode ter de optar entre buscar recursos para financiar um programa contra a tuberculose ou um contra o HIV/aids. No entanto, as duas enfermidades estão estreitamente vinculadas: a tuberculose é a principal causa de mortes entre os que vivem com HIV/aids. Nyirenda, coordenadora nacional da Iniciativa Comunitária para a Tuberculose, o HIV/aids e a Malária em Zâmbia, disse à IPS que a brecha de financiamento terá efeitos reais para as populações locais.

Para cada duas pessoas que recebem tratamento contra HIV/aids, outras cinco são infectadas. Tal como estão as coisas, o Fundo Mundial poderá continuar fornecendo recursos para tratar as primeiras duas pessoas. "Mas, o que acontecerá com as cinco novas infectadas?", perguntou Nyirenda. Sem os recursos necessários, "o Fundo Mundial não poderá manejá-las", respondeu, acrescentando que isso terá consequências de longo alcance. Boa parte dos êxitos obtidos no combate ao HIV/aids pode ser atribuída à redução do estigma social que cerca a doença, o que preparou o caminho para que as pessoas façam os exames e busquem tratamento. Mas se não receberem o tratamento, o estigma voltará, disse à IPS.

Às vezes, as pessoas passam entre um e dois anos em listas de espera para poderem fazer o tratamento, explicou Nyirenda. Se esta situação ficar mais dominante, ou se estas pessoas não receberem todo o tratamento, outros de sua comunidade se sentirão desanimados, perguntando qual o sentido de fazer os exames, acrescentou. E, não se tratando, morrerão precocemente, disse. "A brecha é preocupante. Gostemos, ou não, vai morrer gente", ressaltou à IPS.

 

Originally published by Inter Press Service. © www.streetnewsservice.org

 

 

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