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Energia Sustentável no Coração dos Bairros de Lata

 IPS 18 April 2019

Falemos de alicerces malcheirosos: o Centro Biológico de Katwekera Tosha foi construído sobre os produtos que entram nas sanitas. Este centro comunitário no bairro de lata de Kibera, em Nairobi, vai muito para além da simples resolução de problemas de saneamento – é um modelo para a energia verde, um local de encontro para os moradores locais, e também obtém lucros para os operadores. (769 Words) - By Miriam Gathigah

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Os terríveis sistemas de saneamento disponíveis a centenas de milhares de pessoas que vivem em Kibera, frequentemente designado de maior bairro de lata de África, estão bem documentados.

Um assunto menos discutido do que as abomináveis sanitas voadoras - sacos cheios de fezes atirados tão longe quanto possível, sem prestar atenção aos vizinhos - é o desafio da energia familiar para os pobres que vivem nos centros urbanos.

O elevado e crescente custo de combustível - querosene, parafina, carvão, lenha - representa uma enorme fatia do rendimento das famílias mais pobres. O uso de fontes de energia poluentes em espaços fechados leva a custos adicionais para a saúde dos pobres e a implicações ambientais abrangentes causadas pelos combustíveis fósseis ou pela biomassa queimada de forma ineficaz, completando esta análise sombria.

Cada desafio é uma oportunidade

"O Umande Trust é uma agência que promove o respeito pelos direitos e que acredita que recursos modestos, estratégicamente investidos no apoio a iniciativas de base comunitária, podem melhorar significativamente o acesso à água e ao saneamento para todos," afirma Paul Muchire, director de comunicações do Trust.

A declaração de missão tem orientado o Trust para parcerias com organizações comunitárias de forma a melhorar as condições de vida das pessoas em locais como Kibera.

O Trust disponibilizou-se primeiro para construir sanitas e casas de banho, mas também tinha uma visão mais alargada: assim nasceu o "Acesso Total ao Saneamento e à Higiene" de TOSHA.

"A ideia era explorar o biogás destas sanitas a fim de gerar energia familiar que pudesse ser usada pelas comunidades na preparação de diversas refeições," disse David Kihara, que gere o lado comercial do Centro Biológico Katwekere Tosha.

O centro tem sanitas e casas de banho no rés-do-chão - as sanitas estão ligadas a um digestor biológico, com um tanque de retenção em forma de cúpula onde o gás biológico é produzido. Os dejectos humanos não tratados provenientes das sanitas são canalizados para o tanque, onde as bactérias os desfazem, libertando gás metano que fica retido no topo do tanque em cúpula.

"Um cano é então ligado às casas de banho no primeiro andar, onde está localizado a zona de preparação dos alimentos," descreve Kihara. O gás é canalizado para os fogões colectivos no primeiro andar - e normalmente é suficiente para os membros da comunidade cozinharem durante todo o dia."

"Pagamos uma taxa fixa muito baixa por qualquer prato que pretendemos cozinhar. É uma fonte de energia muito barata e cozinhamos com base no princípio do primeiro a cheger ser o primeiro a ser servido," diz Nina Oyaro, morador da zona.

Mais do que meramente funcional

Muchire explica que o centro deve ser muito mais que um lugar utilitário onde as pessoas podem fazer as suas necessidades, tomar banho ou cozinhar.

"É o centro de muitas coisas. Elevámos a capacidade das organizações comunitárias ligadas a diversos centros biológicos, de tal modo que podem explorar plenamente o espaço onde os centros estão localizados."

Cabe à comunidade decidir que espécie de empreendimento quer estabelecer no piso superior. "Alguns centros biológicos montaram a DSTV (televisão por satélite), permitindo às pessoas verem desafios desportivos mediante o pagamento de uma determinada quantia, como acontence em Katwekera Tosha," afirma outro morador, Otieno Owour.

Muchire diz que os centros se tornaram locais importantes para intercâmbio de informação, o que pode ser confirmado pelos cartazes colados nas paredes e que transmitem diversas mensagens.

"Não são apenas cozinhas comunitárias mas também locais de encontro, onde as pessoas podem descansar à noite depois de um longo dia de trabalho," acrescenta Muchire.

Do ponto de vista comercial, os lucros provenientes destes centros também são significativos. Katwekera Tosha regista um lucro mensal que ascende a 350 e 650 doláres.

Este dinheiro beneficia os moradores que estão registados na organização comunitária.

O centro abre às 05h30 da manhã e encerra às onze da noite. Muchire gostaria de alargar este horário: "O ideal seria estar aberto durante 24 horas, mas a insegurança nos bairros de lata é uma realidade."

Talvez seja este o próximo desafio para a comunidade e para o Umande Trust. Centros como Katwekera Tosha representam um passo gigantesco e sustentável para garantir a segurança energética dos habitantes dos bairros de lata.

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