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O difícil espaço do feminismo

 IPS 18 February 2019

Embora o caminho para a grande tenda verde fosse poeirento e bastante confuso, ao chegar ali era fácil se perder na versão sonora da Torre de Babel. (745 Words) - By Thandi Winston

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As vozes femininas buscavam seu lugar no Fórum Social Mundial (FSM). A barraca de campanha, escondida entre o vento e o pó, a certa distância dos principais acontecimentos do FSM, se tornou a sede não oficial das mulheres no encontro da sociedade civil, que terminou no dia 11, em Dacar.

Demorou uns dias para ser instalada. O espaço físico era uma questão polêmica, devido ao cancelamento de muitos locais destinados às reuniões. Assim, as ativistas lideradas pela Marcha Mundial das Mulheres, sentiram a necessidade de reclamar um espaço onde pudessem falar livremente, sem ter de negociar um espaço discursivo. Jovens e nem tão jovens gritavam fervorosamente ou tocavam tambores, enquanto outras ouviam atentamente os temas em debate.

Sob esta tela verde, um debate colorido e vibrante sobre a situação das mulheres na conflitiva região de Casamance, no sul do Senegal, violência de gênero, HIV/aids e outros desafios que enfrentam as sociedades patriarcais, bem como a marginalização que se percebe de temas femininos no próprio FSM. Embora algumas aplaudissem o espírito da barraca, outras se preocupavam com sua transformação em um símbolo de que os assuntos das mulheres eram marginalizados no contexto mais amplo do Fórum. A assembleia onde foi lida uma declaração recebeu muitas críticas por ser considerado que não representava plenamente a voz de todas as mulheres.

"Fiquei impressionada com o tipo de discussão. Pela primeira vez a África debate sobre o imperialismo e a crise do capitalismo e seus efeitos sobre a população", disse Fatima Aloo, uma veterana feminista da Tanzânia, afirmando que o FSM foi uma grande plataforma para as mulheres que queriam propor questões específicas. Fatima acrescentou que o feminismo sempre esteve arraigado no continente e que agora se faz sentir mais "porque as mulheres africanas fixaram sua própria agenda".

Para Amina Mama, entretanto, a maioria dos debates do FSM sobre criar uma solidariedade entre o mundo em desenvolvimento "ignorou quase completamente o que acontece no feminismo". Esta feminista nigeriana disse que "tivemos pessoas interessantes do Egito, com apresentações que mereceram atenção, que listaram todas as forças sociais que precisavam se mobilizar, menos o movimento de mulheres". Amina, do Fundo Global para Mulheres, comparou a experiência do FSM com a do Fórum Feminista Africano realizado em outubro de 2010, também em Dacar. "Por alguns momentos senti que experimentava uma alteração temporária. Penso que os movimentos sociais devem levar isto mais a sério", afirmou.

A zimbabuense Tendai Makanza, da organização Alternativas ao Neoliberalismo na África Austral, concordou. "Se vejo a quantidade de acontecimentos que ocorrem no FSM, não tenho a ideia de que as questões de gênero façam parte do debate. É muito decepcionante", ressaltou.

A brasileira Júlia Di Giovanni, ativista da Marcha Mundial das Mulheres, admitiu que é difícil organizar reuniões que se centrem no movimento feminista. "Tivemos que trabalhar muito para garantir que seriam ouvidas as vozes da sociedade civil. Trouxemos mulheres da Colômbia e da República Democrática do Congo para que falassem sobre a violência de gênero e o impacto das forças armadas sobre as mulheres", afirmou. O FSM proporcionou "um espaço seguro para que as mulheres falassem" sobre estes temas, acrescentou.

A ativista italiana Francesca Rossi disse à IPS que considerou gratificante ouvir os depoimentos de mulheres africanas sobre violência de gênero. Sara Longwe, feminista de Zâmbia, destacou que "a violência com base no gênero ainda é vista como um problema de saúde e bem-estar. Mas temos de falar sobre ela do ponto de vista do poder. Trata-se de relações de poder. As mulheres estão falando sobre isto e as leis dos diferentes países não fazem frente à violência".

As mulheres jovens presentes ao FSM disseram que se sentiram excluídas e marginalizadas. Cristina Calvo Alamillo, da Fundação Mulheres, da Espanha, disse que "as jovens não são ouvidas no FSM. Porém, também lutam para consegui-lo, ou, pelo menos, para que lhes seja dado o espaço para apresentarem suas preocupações". A ativista acrescentou que "as mulheres jovens têm muitas ideias, mas é difícil mostrá-las devido à pressão social para se casarem e terem filhos".

A estudante norte-americana Colleen Brewster disse à IPS que considerou o FSM interessante pela variedade de debates realizados. E Amina resumiu sua experiência: "Participar do FSM é uma maneira de se reabastecer e de desafiar os irmãos, lembrar-lhes o que está ocorrendo com as mulheres e tentar fazê-los participar".

Originalmente publicado pela Inter Press Service. www.streetnewsservice.org ©

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