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A iniciação das mulheres na Zâmbia – Aprendendo a arte de dançar na cama

 INSP 05 January 2011

Na tradição zambiana do 'chinamwali', mulheres mais velhas ensinam as gerações mais jovens a cozinhar, limpar e, mais intrigante, a fazer sexo. Justine Sibomana foi autorizada a estar presente numa destas cerimônias privadas, e depressa descobriu que apenas assistir não era uma opção. (1712 Words) - By Justine Sibomana and Jorrit Meulenbeek

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The ladies who sing and drum the songs that are used to teach different sexual dance moves. Photo: Justine Sibomana

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One of the married women showing of her skills while others watch and learn. Photo: Justine Sibomana

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The ladies who sing and drum the songs that are used to teach different sexual dance moves. Photo: Justine Sibomana

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One of the older ladies assisting her student tie a 'chitenge' around her waist, a prerequisite for doing the dance moves. Photo: Justine Sibomana

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Two matrons, recently married ladies who have already completed their training, showing one of the students (left) how it is done. Photo: Justine Sibomana

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One of the matrons showing one of the students (left) a dance move. Photo: Justine Sibomana

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A girl dancing, shaking her waist to the beat of the drums. Photo: Justine Sibomana

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One of the girls practising an exercise whereby she has to move down into a kneeling position as slowly as possible, a form of showing respect to the husband. Photo: Justine Sibomana

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One of the older women giving a demonstration of one of the dance moves. Photo: Justine Sibomana

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Ladies teaching each other how to position their hands. Photo: Justine Sibomana

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One of the girls practising an exercise whereby she has to move down into a kneeling position as slowly as possible, a form of showing respect to the husband. Photo: Justine Sibomana

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One of the older ladies demonstrating exercise whereby the woman has to move down into a kneeling position as slowly as possible, a form of showing respect to the husband. Photo: Justine Sibomana


Quando estava em Chawama, uma comunidade nos arredores da capital Lusaka, passei muitas noites conversando com as mulheres locais, que vinham sentar fora de casa e cozinhar em suas churrasqueiras de carvão. Eu ficava intrigada porque a maioria das fofocas sempre ia parar no mesmo tema: a importância do 'chinamwali', o treinamento de iniciação tradicional em que a maioria das mulheres zambianas participam antes de casar.

Por aquilo que eu ouvia dizer, essa era a chave para um casamento bem-sucedido, mas durante nossas conversas as mulheres nunca revelavam o quê exatamente era ensinado nessas misteriosas cerimônias. É claro que fiquei cada vez mais curiosa, e quando finalmente tive a oportunidade de estar presente em uma, nem pensei duas vezes.

Depois de pagar 2000 kwachas zambianas de entrada, menos de metade de um dólar, caminhei para a pequena e escura sala de estar. Só tinha uma janela e a mobília tinha sido toda colocada de lado. Estava lotada de mulheres de diferentes idades, desde professoras idosas até mulheres de família recentemente casadas e, é claro, meia-dúzia de outras alunas.

No canto estavam sentadas duas senhoras, segurando grandes tambores. A porta foi fechada atrás de mim, e enquanto eu ainda estava sondando o ambiente as senhoras começaram a tirar a roupa, algumas apenas puxando suas camisas para cima e mostrando o umbigo, enquanto outras ficaram apenas com a roupa interior e um 'chitenge' amarrado na cintura.

Sem mais introduções, os tambores começaram a tocar e as mulheres desataram a cantar. As batidas do tambor eram tão intensas e altas que eu conseguia senti-las fisicamente, enquanto as mulheres começaram se abanando ao ritmo em sincronia, nos instruindo a imitá-las.

A maioria dos movimentos da dança eram claramente sexuais. De alguns em alguns minutos a música e a batida mudavam, e era apresentado um novo movimento. Eu não entendia as letras das músicas, todas em chiNyanja, por isso tentava adivinhar de que forma alguns dos movimentos seriam úteis na prática. A maioria deles imitava posições sexuais, enquanto outros eram danças para excitar o seu marido ou exercícios para ganhar flexibilidade.

Enquanto eu assistia as senhoras mais experientes dançando, mexendo a cintura de forma independente ao resto do corpo, pensei que o meu corpo não seria nunca capaz de fazer aquilo. Mas enquanto eu me esforçava por imitá-las, as senhoras idosas vinham e paravam atrás de mim, segurando minhas coxas para garantir que apenas a cintura ficava livre para se movimentar.

"Não, não, você está fazendo como a Shakira", diziam quando eu abanava muitas outras partes do corpo. Quando finalmente consegui acertar, elas bateram palmas e festejaram com entusiasmo.

Bridget Banda, que fez esse treinamento antes de casar há três anos atrás, recorda esta como uma experiência muito positiva. "O treinamento me fez crescer. Vejo mais maturidade em mim. Agora, quando vejo mulheres que não passaram por isso, penso que estou bem melhor do que elas."

Ela considera que a maioria dos homens zambianos quer uma mulher que tenha sido iniciada. "Você não passou pelo treinamento?" é uma frase frequentemente ouvida quando um homem critica a sua esposa. Em alguns casos os maridos desiludidos acabam até enviando suas mulheres de volta para aprenderem melhor, uma das piores vergonhas imagináveis para a família.

"A maioria dos homens sabe o que esperar de uma mulher antes de casar", explica Banda. "Por isso, se a mulher não corresponder a essa expectativa, eles acabam por arrumar amantes."

Esse é um dos maiores riscos de não fazer a iniciação, diz Florence Mutambo, uma das 'banacimbusa' experientes que estão me ensinando. "Se você não souber agradar a seu marido na cama, ele poderá acabar por procurar uma prostituta", ela diz de forma direta. "Essas pessoas são profissionais destas coisas, por isso ele estará melhor com elas".

Devo admitir que os primeiros minutos deste treinamento tão explícito foram bastante embaraçosos. Algumas das outras alunas e as professoras se envolviam de verdade no treinamento, como se estivessem mesmo no ato. Mas quando eu olhava em volta, todo o mundo parecia bastante confortável com isso. As senhoras zambianas podem ser tímidas e reservadas sobre estes assuntos em público, mas dentro desta sala o ambiente era incrivelmente livre e aberto.

"Vou tentar isto com meu marido esta noite", uma das senhoras disse. "O meu marido nunca gosta que eu faça isto", lamentou outra, e depois uma das senhoras idosas deu mais dicas e truques para fazê-lo melhor.

Elas continuavam e continuavam, eu nem conseguia acreditar que estas senhoras, que deviam ter os seus cinquenta ou sessenta anos, fossem capazes de manter isto durante tanto tempo, enquanto eu já tinha que me esforçar depois de apenas alguns minutos. "Você vai simplesmente parar assim e dizer ao seu marido que está cansada?", me perguntaram quando eu mal conseguia esconder que estava exausta.

Enquanto caminhava para casa com esforço, com os músculos doridos depois de mais de três horas sem parar de exercícios pesados, olhei em volta e vi as mulheres zambianas com outros olhos. De repente, passei a ter muito mais admiração por elas, que são capazes de passar por isto. E isto depois de apenas um dia de um programa que dura mais do que duas semanas. No dia seguinte aprendi ainda mais movimentos e técnicas, incluindo como depilar meu marido 'nas partes baixas'.

Depois de verificar que a porta estava fechada e que ninguém estava olhando pela janela e frisar que "isto é só para o quarto, é só para o seu marido", uma das mulheres de família começou a dar uma demonstração pormenorizada de como todos os movimentos que aprendemos são usados na prática. Agarrando seu marido fictício em todas as posições imagináveis, ela continuou por mais de quinze minutos, enquanto as outras mulheres batiam palmas e jogavam dinheiro para ela em sinal de agradecimento.

A forma como fazer amor foi transformado numa série de movimentos de dança fez com que fosse mais abstrato e fascinante de assistir. Não teve nada a ver com um filme pornô, foi mais como estar num teatro assistindo a uma performance artística. Eu só podia admirar estas mulheres, que levaram esta prática quase até à perfeição.

Antes de vir para cá, eu não teria acreditado que era possível mulheres de diferentes gerações partilharem livremente conhecimento tão íntimo desta maneira. Isso funciona realmente como uma plataforma social e educacional,  e a forma como nos relacionamos umas com as outras fez desta uma experiência sensacional. Olhando para trás, e apesar dos meus músculos das pernas dizerem o contrário, eu não gostaria de ter perdido isso.

Barra Lateral - Prática retrógrada ou um bom exemplo?

A conselheira tradicional Florence Mutambo concorda que a tradição do 'chinamwali' ensina as mulheres a serem submissas perante seus maridos, mas não vê nada de errado nisso. "Elas devem ser assim mesmo, é assim que as coisas devem ser."

De uma perspectiva ocidental é tentador pensar nas iniciações tradicionais das mulheres como uma prática retrógrada e ver nelas uma ligação com a situação do país em termos de igualdade de gêneros.

Nelson Banda do Lobby Nacional Zambiano pelas Mulheres diz que a Zâmbia ainda tem um longo caminho a percorrer quando o assunto é igualdade de gênero e participação das mulheres, indicando que atualmente existem apenas 24 mulheres num parlamento com 158 membros e que há muito poucas mulheres em outras posições de liderança.

Banda sente que existe um desequilíbrio entre as mulheres e os homens por causa da iniciação. "As mulheres vão para o casamento muito bem preparadas, mas aos homens ninguém ensina como agradar suas esposas, é isso que é triste."

Mas dizer que os problemas da igualdade de gênero são causados exclusivamente pelos rituais de iniciação é um exagero, diz Iriss Phiri, fundadora da Associação Nacional das Conselheiras Tradicionais. "A iniciação é apenas um componente, e não penso que seja um dos principais", diz. "As meninas crescem vendo as mulheres em papéis submissos desde uma idade muito precoce, não é apenas por causa daquilo que aprendem durante algumas semanas de treinamento."

Ao invés, ela acha que este tipo de aconselhamento, se for feito da maneira correta, pode ter um impacto positivo na igualdade de gênero. É por isso que a sua organização, que tem agora mais de duas mil conselheiras por todo o país, promove a forma tradicional de aconselhamento pré-casamento, mas com uma pequena mudança.

"Ensinamos ambos, homem e mulher juntos", ela diz. Esta forma adaptada pretende sensibilizar os homens para os direitos das mulheres.

Ela admite que a forma tradicional de iniciação contribuiu para o problema da violência de gênero. Segundo o último Estudo Demográfico e de Saúde da Zâmbia, 61% das mulheres zambianas acham que é aceitável que seus maridos batam nelas quando elas negam fazer sexo.

"Alguma da nossa cultura foi má", diz Phiri. "Mas ensinar as mulheres e os homens é muito bom, só temos que escolher as coisas certas para ensinar."

Thera Rasing, uma pesquisadora holandesa que lidera o Departamento de Estudos de Gênero na Universidade da Zâmbia, acredita que hoje em dia os ensinamentos tradicionais são muitas vezes mal interpretados, distorcidos pela visão moderna. Ela diz que as mulheres são ensinadas, sim, para uma certa subserviência, mas muito mais do que isso, aprendem a lidar com seus maridos de uma maneira inteligente.

São ensinadas a evitar conflitos e a negociar com eles para conseguirem o que querem, deixando que eles pensem que são eles quem manda. Se isto for feito da maneira certa, acaba por dar mais poder às mulheres. Como disse uma das professoras da iniciação, um marido é como um bebê: "Assim como os pais sabem lidar com o seu filho, também a esposa deve saber ser mãe do seu marido."

A conselheira tradicional Mutambo gostaria que todas as mulheres do mundo pudessem ter acesso a treinamento como este. Iriss Phiri, quase surpreendida por ouvir que isso não existe na maioria dos países ocidentais, concorda plenamente. "Se as pessoas estiverem interessadas, devem vir aqui, ou nos convidar a ir lá. Teremos todo o gosto em treiná-las, para que possam depois também ensinar a outras."

Traduzido por: Fernanda Roxo

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