print logo

Guaranis buscam valor turístico de sua cultura

 IPS 24 January 2019

Em seu enclave na selva do nordeste argentino, um punhado de indígenas estuda sua própria cultura, para convertê-la em atrativo turístico. (991 Words) - By Clarinha Glock

Share

Após recuperar parte de seu território em 2005, uma comunidade guarani da província Argentina de Misiones tenta manter e ampliar uma iniciativa de turismo cultural indígena. Em 265 hectares localizados a 20 minutos de carro das Cataratas do Iguaçu e a dez quilômetros do centro da cidade argentina de Porto Iguaçu, os indígenas da comunidade Yryapú aprendem computação e idiomas estrangeiros, enquanto revalorizam sua própria cultura.

As 75 famílias, que convivem em meio a uma densa selva cobiçada por empresários do setor de turismo, contam com assistência do projeto Mate (Modelo Argentino para Turismo e Emprego dos Povos Originários), financiado pelo governo de Misiones e pela Agência Canadense de Desenvolvimento Internacional. A ideia nasceu quando integrantes do canadense Niagara College contataram, em 2005, o Instituto Tecnológico Iguazú, uma escola de turismo e hotelaria que faz parte do Mate, e propuseram trabalhar em turismo cultural indígena.

Os mbyás guaranis da comunidade acabavam de recuperar oficialmente parte de seu território e, como outras populações indígenas, se sentiam forçados a abandonar seu estilo de vida tradicional, que não dava garantia de sobrevivência, e tentados a assimilar costumes ocidentais. O projeto para valorizar a identidade e a cultura próprias culminou em 2008, quando o Mate começou o processo de autogestão, o que permitiu aumentar o apoio e as fontes nacionais e internacionais de financiamento.

Naquele ano foi criada a organização não governamental canadense Friends of Yryapú (Amigos de Yryapú), que contribui financeiramente para devolver aos donos da terra os instrumentos para viverem sem dependência do assistencialismo. Os jovens se capacitam para manter a cultura e se adaptarem às novas realidades, o que inclui o uso de computador. "Hoje não se vive mais como antigamente", disse ao Terramérica o guarani Ricardo Fernández, de 40 anos, que trabalha como professor bilíngue na escola da comunidade e ensina sobre os costumes ancestrais de seu povo. "Só dessa forma vamos ter recursos para trabalhar e manter a família", explicou.

Porém, a maioria vive da venda de artesanato: colares, pulseiras, aneis, cestas e figuras talhadas em madeira. Outros trabalham de maneira informal nos arredores. E muitos dependem da ajuda do governo. Praticam a agricultura de subsistência, cultivando milho, batata doce, mandioca e abóbora. Criam porcos e galinhas, enquanto a caça se restringe a alguma ave ou mamífero pequeno. O estilo ancestral das casas de troncos, paredes de bambu e barro e teto de folhas de palmeira - também presentes nos recintos religiosos - foi substituído por habitações de madeira com teto de chapa e, às vezes, de palha.

Poucos têm estudo secundário. As escolas da cidade só oferecem ensino básico até a sétima série. O projeto Mate tenta superar este vazio. Francisco Medina estuda informática há quatro anos, tem dois filhos e entende quatro idiomas: guarani (seu idioma materna), espanhol, inglês e francês. Seu sonho é trabalhar como guia turístico. "Tenho duas horas de computação por dia", disse ao Terramérica. Como ele, Elvio Barreto, de 32 anos, também estuda inglês e assim consegue entender os turistas para guiá-los pelos caminhos traçados na área de selva.

Na Escola Bilíngue Intercultural de Turismo Mbyá Guarani Clemência González, ou Escola da Selva, os indígenas vivem a educação trocando experiências com os professores. Ali estudam noções de patrimônio cultural e natural e assistem conferências e vídeos sobre costumes e tradições de seu povo. A escola já tem 70 alunos de 13 a 38 anos. Junto aos estudantes de Yryapú participam jovens de outras comunidades mbyá de Misiones, Brasil e Paraguai. Além das visitas guiadas, é proporcionada ao visitante a oportunidade de comprar artesanato ou mesmo de aprender a confeccioná-los, ou de ouvir o coro infantil e os relatos do passado desta outrora poderosa nação indígena.

O dinheiro obtido com estas atividades vai para um fundo comunitário que ajudará a sustentar uma futura empresa e cobrir cuidados em saúde, educação e assistência social às famílias. "Enquanto os indígenas não forem orientados para que tenham sua própria empresa, não é momento para avaliar os resultados econômicos do projeto. A quantidade de visitantes é incerta e não há uma organização administrativa", disse ao Terramérica o professor e escritor Claudio Salvador, coordenador do Mate. "Este é um passo de grande alento. Nossa tarefa é educar para o trabalho por meio do método intercultural que criamos, cujo impacto mais esperado é melhorar a qualidade de vida", destacou.

O passeio pela comunidade Yryapú começa no quilômetro quatro da rodovia internacional 12, em Porto Iguaçu. E fica na memória, deixando a sensação de se ter acesso a uma parte da história que os livros não registram. Em Misiones, existem cem comunidades guaranis dos grupos mbyá e ava katú eté. Delas, apenas 25 têm título de propriedade sobre suas terras. Muitos indígenas vivem marginalizados e dependem da assistência do Estado.

A situação não é muito diferente em outros países sul-americanos. Estima-se que há cerca de 300 mil guaranis distribuídos pelos territórios do Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina e Bolívia. Deste total, o ramo dos mbyás soma entre 11 mil e 13 mil pessoas no Brasil, Paraguai e Argentina. O maior grupo se concentra na região do Chaco, segundo Egon Dionísio Heck, coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), do Estado brasileiro de Mato Grosso do Sul.

Junto a outras entidades que trabalham com os guaranis, o Cimi prepara um mapa da localização e extensão de seus territórios, atualizando dados demográficos e ambientais, que ficarão prontos no final deste ano. "Apesar dos esforços de alguns presidentes sul-americanos comprometidos com a regularização das terras, prevalece a força do agronegócio", disse Egon ao Terramérica. Em Misiones, também é grande o avanço das indústrias de celulose e dos cultivos de pinheiros e eucaliptos em áreas de selva onde vivem os indígenas, acrescentou.

* * A autora é correspondente da IPS.

Originalmente publicado pela Inter Press Service. www.streetnewsservice.org ©

SNS logo
  • Website Design