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A nação mais nova do mundo enfrenta desafios

 Street News Service 04 July 2019

Com o elevado número de refugiados a retornar ao Sudão do Sul na véspera do mesmo receber o status official de nação, recursos escassos tornam-se ainda mais insuficientes. (1574 Words) - By Danielle Batist

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Sabia Leot Sabia Leot (21), mother of three and expecting the fourth baby, was sent to Juba by her husband who then disappeared. With no money for shelter or food, she has been homeless for the past 5 months. This is a cut-out of a portrait sized picture. Please download the image for the full size version.Photo: Simon Murphy

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Richard Luka (32) came back to South Sudan in 2006.Photo: Simon Murphy

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Sabia Leot (21), mother of three and expecting the fourth baby, was sent to Juba by her husband who then disappeared. With no money for shelter or food, she has been homeless for the past 5 months. Photo: Simon Murphy

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The village chief welcomes returnees to his compound outside Juba.Photo: Simon Murphy

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Sabia Leot has three small children and is now pregnant with the fourth baby. This is a cut-out of a portrait sized picture. Please download the image for the full size version.Photo: Simon Murphy

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Sabia Leot has three small children and is now pregnant with the fourth baby. This is a cut-out of a portrait sized picture. Please download the image for the full size version.Photo: Simon Murphy

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Richard Luka (32) came back to South Sudan in 2006.Photo: Simon Murphy


Na cidade de Juba, a vida de Sabia Leot é madrasta. A jovem de 21 anos está grávida e nos últimos cinco meses tem vivido como uma sem-abrigo. Sabia passa a maior parte dos dias a vaguear pelas ruas com as suas três crianças, a tentar desesperadamente encontrar trabalho, comida e abrigo.

"Quando não chove dormimos debaixo de uma árvore. Mas quando começa a chover, só nos resta esperar que alguém nos abrigue da noite. Durante o dia ando de porta em porta a perguntar às pessoas se há algum trabalho que eu possa fazer. Torna-se cada vez mais difícil com a barriga a ficar maior. Às vezes as pessoas dão-me alguma comida ou algumas libras (sudanesas), mas frequentemente passamos fome. Eu digo aos pequenos: Não se preocupem, vamos dormir. Amanhã comeramos."

Leot é uma refugiada que recentemente chegou a Juba, que fica na margem do rio Nilo Branco no Sudão do Sul. Juba é uma das cidades do mundo a desenvolver mais depressa e a 9 de Julho de 2011, tornar-se-á a capital mais nova do mundo quando a República do Sudão do Sul passar a existir oficialmente.

O nascimento da nova nação foi proclamado em Janeiro em seguimento do referendo feito no sul do Sudão, no qual 99,7% da população  - predominantemente cristãos e animistas - votou para a separação do norte islâmico.

Uma história de violência

Após cinco décadas de guerra em que mais de dois milhões de pessoas morreram, o resultado da eleição trouxe uma nova esperança a centenas de milhares de sudaneses deslocados por causa do conflito. A guerra começou depois de sucessivos governos Khartoum sedeados no norte Árabe terem contido investimentos e influência ao negro sul africano, e durante anos as Forças Armadas Sudaneses (SAF, em inglês) do norte colidiram com os rebeldes do sul, o Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA), levando a uma das maiores taxas de mortalidade de qualquer conflito desde a Segunda Guerra Mundial.

Contudo, enquanto o combate terminou formalmente em 2005, o acordo de paz assinado na altura parece estar a desmoronar-se nesta conjuntura histórica. Nos últimos meses a violência em zonas fronteiriças entre o norte e o sul foi retomada e têm havido alegações de uma 'nova Darfur' perpretada por governantes Árabes do norte, liderados por Ahmed Haroun, que alegadamente têm como alvo a negra tribo Africana Nuba.

Haroun já foi acusado pelo Tribunal Penal Internacional em Haia por crimes contra a Humanidade e alegados crimes de guerra em Darfur.

Nos últimos meses, o combate tem sido travado ao longo da fronteira entre os dois futuros estados - e milhares de refugiados estão uma vez mais a deslocarem-se.

Abyei, região fronteiriça rica em petróleo, esperava ter o seu próprio referendo sobre juntar-se ao sul, mas foi ocupada pelas forças de Khartoum em maio e milhares fugiram da violência. Um acordo foi agora assinado para desmilitarizar a zona e permitir as forças de paz da Etiópia entrar na mesma, enquanto o seu futuro é decidido.

A ironia que a Guerra voltou quando uma nova nação está frente-a-frente a tantos grandes desafios, é personalizada emLoet, uma órfã de sete anos que foi criada por uma tia numa vila perto da cidade sul-sudanesa Yei.

" A minha família arranjou o meu casamento com um soldado do SPLA quando eu tinha catorze anos. Pouco tempo depois o meu marido foi transferido para uma base militar na cidade de Bantu. A vida foi pacata durante algum tempo, até que a violência rebentou no final do ano passado. Eu estava grávida de três meses com a minha quarta criança," ela diz.

Em dezembro, o marido de Sabia decidiu que a sua mulher e os filhos deveriam deixar a zona, dado que a luta se tinha intensificado. Ele deu-lhe dinheiro e um telemóvel e disse-lhe para levar as crianças para Juba.

"Eu aluguei um pequeno quarto para mim e para as crianças e o meu marido disse-me para não me preocupar e que ele mandaria dinheiro todos os meses até que fosse seguro para nós voltarmos. Eu pensei que tudo fosse ficar bem," diz Leot.

Contudo, após o primeiro mês, não chegou mais dinheiro nenhum e Leot e os seus filhos foram expulsos pelo senhorio. Ela não faz idea onde está o seu marido, e sem família para onde se virar, Leot tem vivido o dia-a-dia sem uma fonte de rendimento estável.

A situação de Leot reflecte a de outros milhares de sul-sudaneses que estão a voltar do exílio.

Voltar para o nada

Depois do voto pela indepenência, o governo do Sudão do Sul apelou aos seus cidadãos que retornassem e que reconstruíssem a sua nação, mas a maior parte dos retornados acabaram sem abrigo.

Cerca de 390 mil refugiados sudaneses continuam a viver em campos ou em ambientes urbanos em países vizinhos, em particular o Egito, Chade, Uganda, Quénia e Etiópia.

De acordo com a Organização Internacional  para as Migrações (IOM/OIM), mais de 300 mil pessoas retornaram ao sul só nos últimos sete meses. O número de retornados continua a crescer e outros milhares de pessoas são esperados voltar depois de 9 de Julho.

Apesar do apoio da comunidade internacional, o influxo de pessoas está a pôr uma enorme pressão nos recursos limitados de um país onde 85 por cento das pessoas  - segundo um relatório do Banco Mundial Contra a Fome em 2010 - não têm o sufficiente para comer, e metade da população vive em pobreza extrema.

A escassez de comida, água potável, saneamento e cuidados de saúde, são enormes e a infrastrutura do país está um caos. A nova República do Sudão do Sul cobre 400 mil milhas quadradas - uma área maior que o Reino Unido e a Alemanha juntos - contudo, há apenas 19 milhas de estradas pavimentadas.

Isto torna a vida altamente problemática para caridades tais como a Scottish Catholic International Aid Fund e a Caritas, que estão em Juba para oferecer assistência humanitária a cerca de 100 mil pessoas em necessidade urgente de abrigo, alimento e saneamento.

Ilse Simma, chefe da unidade de coordenação para o grupo internacional Caritas de alívio católico e organizações de desenvolvimento, disse: "Eu não penso que alguém esperasse um êxodo vindo do norte destas proporções. É uma crise humanitária porque num país que tem baixos padrões de desenvolvimento e recursos bastante escassos, põe imensa pressão nas comunidades de acolhimento."

Todos os retornados do sul foram prometidos um pedaço de terra, mas isso levará tempo se é que acontecerá de todo.

Alguns, como Archangelo Valentino, 47, que retornou de Khartoum em janeiro, vieram sem nada. Archangelo é quase completamente cego. Em Khartoum ele vivia com familiares e, incapaz de arranjar trabalho, deparou-se aqui com uma vida ainda mais difícil que em Juba. "Pelo menos em Juba havia verduras que comer, em Khartoum pode-se passar o dia sem comer," ele diz.

Outros retornaram do exílio com uma boa educação que será vital em reconstruir o Sudão do Sul.

Juan Gore, 39, é uma trabalhadora da área da saúde, com quatro filhos, que foi parcialmente educada em Juba. Ela partiu num avião de carga cheio de evacuados, em 1989 e foi para Khartoum, onde ela e três irmãos mais novos completeram a sua educação. Ela conheceu e casou outro sul-sudanês, James David Wani, agora 48, e o casal então viajou como refugiados para o Chade e Camarões, à procura de uma vida melhor, antes de assentarem no Egito, onde James se tinha anteriormente qualificado como professor de físico-química.

Juan mantém reservas quanto a Juba. Ela tem três filhos e uma filha, com idades dos 9 meses aos 10 anos, e eles continuam no Egito com a sua cunhada.

"Eu voltei porque eu queria ver como seria. Disseram-me que este pedaço de terra vazio era meu. O que posso eu fazer? É verdade que me sinto em casa, mas não posso trazer os meus filhos. Durante a noite não há luz nem assistência médica. Não os posso matricular em nenhuma escola aqui perto. No Egito eles têm computadores, eles têm email. Aqui não há email, diz ela.

Outros na capital não escondem o otimismo apesar dos problemas atuais, incluindo Richard Luka, 32, que viveu em Khartoum como refugiado durante 27 anos. Crescendo em Khartoum ele viva entre dois mundos. Na escola ele falava árabe como as outras crianças, mas em casa a família falava a sua língua materna, bari, para manter o seu espírito do sul vivo.

"Os meus pais costumavam contar-nos sobre Juba. Sempre que aparecia na televisão, eles chamavam-nos. Pareria-me bastante bonita. O meu sonho sempre foi voltar a Juba. Eu sabia que era a minha verdadeira casa."

Luka voltou a Juba em 2006 e conheceu a sua mulher Nora Joan em Juba, que está agora grávida de 9 meses e prestes a dar à luz o primeiro filho do casal. A sua criança será uma das primeiras crianças da nova Repúlica do Sudão do Sul.

"É muito especial. Eu serei o pai mais orgulhoso do mundo. Já decidi o nome do bébé. Quer seja rapaz ou rapariga, ele chamar-se-á Hora - significa Liberdade em árabe de Juba.

Para fazer uma doação para o trabalho da Caritas no Sudão e pelo mundo fora, visite www.caritas.pt ou ligue 21 84 54 220.

Translated by Tatiane Feres

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