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Um futuro sem visão

 Street News Service 04 July 2019

No dia 9 de Julho, o sul do Sudão irá se separar do norte e se tornará a nova nação do mundo. Depois de décadas de uma guerra civil sangrenta, que deixou 2 milhões de pessoas mortas, os sulistas se preparam para uma vida num país independente. Um país aonde alguns não poderão enxergar. (1823 Words) - By Danielle Batist

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Razigi Kometi and his occupational therapist Andrew Maina walk down the mud path - this is a big challenge for Razigi.Photo: Simon Murphy

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Razigi standing next to his house.Photo: Simon Murphy

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Razigi was bitten by a blackfly and developed a disease called Onchocerciasis, or river blindness. This is a cut-out of a portrait sized picture. Please download the image for the full size version.Photo: Simon Murphy

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Razigi, 13 years old, is learning how to deal with his recent blindness.Photo: Simon Murphy

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Razigi was bitten by a blackfly and developed a disease called Onchocerciasis, or river blindness. This is a cut-out of a portrait sized picture. Please download the image for the full size version.Photo: Simon Murphy

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Razigi was bitten by a blackfly and developed a disease called Onchocerciasis, or river blindness.Photo: Simon Murphy

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Occupational therapist Andrew Maina teaches Razigi basic skills that will help him not to hurt himself.Photo: Simon Murphy

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Razigi Kometi and his occupational therapist Andrew Maina walk down the mud path - this is a big challenge for Razigi.Photo: Simon Murphy

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Razigi, 13 years old, is learning how to deal with his recent blindness. This is a cut-out of a portrait sized picture. Please download the image for the full size version.Photo: Simon Murphy

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Razigi with his mother Mary Kometi, who also blind. This is a cut-out of a portrait sized picture. Please download the image for the full size version.Photo: Simon Murphy


A estrada para a cabana da família Kometi é esburacada, cheia de mato alto em ambos os lados. Especialmente na estação das chuvas o complexo é de difícil acesso, localizado seis quilômetros da estrada principal. Contam as lendas urbanas que grupos de ajuda humanitária já ficaram atolados na lama e tiveram que passar a noite no carro enquanto hienas esperavam no mato. Ainda assim, esse motivo não impede que o terapeuta ocupacional Andrew Maina faça esse caminho, pelo menos, duas vezes por semana. Ele tem uma boa razão, segundo ele. Ele iria - nem que tivesse que fazer a caminhada a pé.

A razão se torna clara assim que Maina entra do complexo desértico. Ele anda até uma das cabanas enlamaçadas e se ajoelha em frente. Sua voz tem um tom baixo e gentil quando fala. "Razigi, você está aí?" Depois de alguns segundos, um garoto tímido de 13 anos aparece na porta feita de barro. Ele veste uma camiseta simples e amarela que está rasgada de um lado, e uma bermuda furada. Seus pés descalços estão cobertos da areia vermelha. Assim que lentamente aparece, ele corre uma das mãos na palha da cabana. Sua outra mão segura um bambu grosso. Seus olhos parecem vidrados e sem vida. Razigi Kometi é cego.

Maina o pega pela mão e o leva para a área de refeição coberta dentro da cabana. Sentam-se  em um banquinho do lado do fogão de lenha. Andrew coloca uma caneta em uma mesinha feita de bambu e pergunta se Razigi consegue encontrar o objeto. O garoto sempre coloca as palmas de suas mãos na mesa e procura o objeto até que sua pele toque a caneta. Ele apanha o objeto e segura com as duas mãos. É a primeira vez nessa visita, que Razigi fala: "caneta". Maina responde com palavras encorajadoras e coloca na mesa o outro objeto.

É um simples exercício como esse, ele explica mais tarde, que será valioso para o futuro de Razigi. "Estamos apenas no começo de seu treinamento. Ele precisa ter o conhecimento básico para se proteger de machucados. Estamos o ensinando métodos como usar o dorso da mão para procurar objetos antes de apanhar, para que ele não corte seus dedos. Segurança é nossa prioridade mas nosso trabalho maior é tentar dá-lo sua confiança de volta."

Durante a infância de Razigi, muitos eventos contribuíram para sua insegurança. Ele cresceu numa vila pequena de Lui, em uma das áreas mais pobres do sul do Sudão judiado pela guerra. Sua infância foi marcada por conflitos entre o norte predominantemente Muçulmano e o Catolicismo e religiões tribais que dominavam o sul, quando os soldados do governo e rebeldes do Exército Popular de Libertação do Sudão (SPLA) se enfrentaram em uma das mais longas guerras civis da África. Um acordo de paz foi assinado em 2005, quando Razigi tinha 7 anos de idade. Sua mãe Mary achou que o fim da guerra traria uma nova vida para ela e suas oito crianças mas o desastre aconteceu novamente.

Embora o rio Nilo esteja longe da vila, a família Kometi sabia de seus perigos. Beber a água poderia fazer uma pessoa doente e afogamento era um risco real para aqueles vivendo perto do rio. E também existiam os parasitas que se multiplicavam no Nilo, um dos mais ameaçadores sendo o 'blackfly' (borrachudo), que transmite uma doença chamada oncocercose, ou cegueira do rio. Mais de 37 milhões de pessoas são infectadas e 99 por cento dos casos são encontrados em comunidade pobres e rurais africanas. A doença causa lesões dermatológicas e secreções oculares que podem levar a cegueira. Razigi e sua mãe foram picados pelo borrachudo e desenvolveram a doença. Se for detectada e tratada em tempo, a cegueira pode ser evitada mas o centro médico da área estava sem medicação. Quando os colegas de Maina que fazem parte da SEM, organização que lida com deficiências do sul do Sudão, entraram em contato com a família Kometi, ambos Razigi e Mary já tinham perdido a vista.

Esses são os legados escondidos da guerra civil, diz Maina. "Quando as pessoas pensam em guerra civil, eles geralmente imaginam ferimentos por tiros ou machucados relacionados a minas explosivas. Eles não pensam em todas essas pessoas em que a doença ou morte poderiam ser evitadas, se apenas o tratamento certo estivesse disponível. A guerra parou quase que todo o desenvolvimento aqui. Muitas das deficiências de nossos pacientes estão diretamente relacionadas com a falta completa de medicamentos durantes e depois da guerra."

É estimado que 3.2 por cento da população do sul do Sudão é cega - um dado excepcionalmente alto até para a África. Muitos casos são relacionados por infecções de parasitas, que geralmente podem ser prevenidos. No caso de Razigi e muitas outras famílias nos Estados da Equatória Oeste e Central, era quase impossível não ter contato com o borrachudo. Maina explica: "Durante a guerra, eles disseram que eles deveriam ficar perto da água para sobreviverem. Eles comeram os peixes, beberam a água. Mas foi o mesmo rio que os tornou cegos."

Por ter crescido na guerra e pobreza extrema, Razigi nunca teve uma vida livre mas perder sua visão o fez sofrer de tal modo que os trabalhadores da ajuda humanitária consideraram um nível 'preocupante'. Quando a equipe do SEM começou a trabalhar com ele, Razigi geralmente recusava a sair de sua cabana. Tentativas de ensiná-lo a usar uma bengala o tornou bravo a ponto de a jogar fora. As coisas começaram a ficar ainda mais difíceis quando todos os parentes mais jovens de Razigi começaram a ir para a escola. De repente, ele estava sozinho no complexo, com ninguém para brincar ou nada para fazer. Quando perguntado se ele queria ir com as outras crianças para a escola, seus olhos grandes e escuros encheram-se de água. As lágrimas escorreram em seu rosto quando ele afirmava com a cabeça. Ele sussurrou algumas palavras no peito de Maina.  "Ele está chorando porque gostaria de ser como eles."

Com o apoio do Departamento de Desenvolvimento Internacional do Reino Unido (DFID) e da Ajuda Humanitária Internacional Católica Escocesa (SCIAF), SEM alcançou 6.500 pessoas nas áreas rurais em três regiões. Além das dificuldades logísticas, a equipe também sofre pressão para apoiar pessoas com todos os tipos de deficiência. A falta de apoio adequado do governo significa que SEM - como uma das poucas organizações do campo - tem que apoiar pacientes com uma variedade de deficiências visuais ou físicas.

Geralmente é uma questão de aprendizado do trabalho, já que cada caso é diferente. Um fator que complica a situação no Sudão é o trauma causado pela guerra em muitas pessoas, diz Maina. De volta em Kênia, seu país de origem e o lugar em que recebe treinamento, as crianças em particular são inclinadas a se comportarem 'de acordo com as regras'; de um jeito espontâneo, infantil. No estado da Equatória Oeste, seus pacientes jovens geralmente sofrem de ansiedade, medo de barulho e movimentos inesperados e alto nível de stress. Tudo isso fez de Maina uma pessoa ainda mais determinada para fazer seu trabalho.

Na cabana da família Kometi, os esforços e incontáveis horas de treinamento da equipe do SEM, começaram a surtir efeito. Quando Maina pergunta a Razigi o que ele tem feito desde sua última visita, o garoto responde timidamente: "Eu lavei minhas roupas a noite passada." "Isso é muito, muito bom", responde Maina, com um sorriso enorme. E para seu colega de trabalho, quando Razigi volta para dentro da cabana: "Isso é um marco."

Treinamento de orientação e mobilidade são essenciais para o desenvolvimento de uma pessoa cega e o apoio da família nesse processo é crucial. Maina e seu colega de trabalho querem trabalhar mais com a mãe de Razigi, ensinando-a em como apoiar seu filho e a si mesma. Entretanto, a falta de recursos significa que a atenção deles se volta para o menino. Uma tia que vive com a família os ajuda quando os terapeutas não estão presentes.

Com a independência finalmente chegando, muitos Sudaneses sulistas se sentem esperançosos com a nova nação. Embora ainda exista a disputa para se conseguir terra e petróleo nas fronteiras, o presidente do sul do Sudão, Salva Kiir, está determinado a evitar qualquer ação que coloque em risco a independência tão esperada. Seu partido, SPLM (braço político do SPLA), prometeu um desenvolvimento de governança democrático mas os desafios são enormes. Um estudo feito pelo Banco Mundial em 2010 afirma que 85 por cento dos cidadãos do sul do Sudão vivem abaixo da linha de pobreza, comparado com 46 por cento no norte. A expectativa de vida da nação é de 58.5 anos mas a distribuição injusta de capital e a falta de consistência no desenvolvimento no sul significa que a situação real da nova nação é até mais sombria.

Será um caminho longo até que o apoio adequado do governo comece a aparecer considerando que o país terá que começar do zero em todos os sentidos. As instituições de caridade e igrejas, nesse meio tempo, dão passos pequenos para melhorar a vida de alguns em uma das nações mais vulneráveis. Com um pouco de sorte, a escola do vilarejo em Lui talvez consiga ensinar o Braile básico para Razigi no próximo ano. Um professor já expressou o interesse e SEM está procurando por outras alternativas para conseguir encontrar fundos para o treinamento. Eles também esperam conseguir alguns brinquedos especiais como uma bola com um sino dentro. Futebol era o esporte favorito de Razigi.

Atrás das duas cabanas feitas de barro que formam o lugar aonde a família Kometi vive, existe um caminho estreito. É feito de alguns poucos metros mas quando Razigi se tornou cego, esse caminho se tornou interminável para ele. No fim do caminho, vive um de seus dois únicos amigos. Ele conhecia esse caminho como a palma de sua mão mas sem a habilidade de enxergar, ele tem medo de deixar sua cabana. No fim de cada visita, Maina e Razigi andam o caminho juntos. Razigi vai atrás, tocando o mato pela direita e esquerda com seu graveto para que saiba que está no caminho certo. Ele conta os passos até o número que contou da última vez. Nesse momento é que Maina coloca sua mão nos ombros de Razigi, gentilmente o encorajando a andar mais alguns passos antes que ele retorne. Eles esperam alcançar o fim do caminho em alguns meses.

Para fazer uma doação ao trabalho da Cáritas no Sudão e no mundo inteiro, visite

www.caritas.pt ou ligue 21 84 54 220 (Portugal)

www.caritas.org.br ou ligue +55 (61) 3272 1700 (Brasil)

Translated by Tatiane Feres

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