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Hotel mil estrelas

 Boca de Rua (Brazil) 25 May 2019

Os colaboradores do Projeto Boca de Rua, composto por 30 participantes sem-teto, produziram numa das suas oficinas semanais este ensaio sobre a sua experiência em fazer da rua a sua casa. Uma casa com cozinha, banheiro e quarto e o céu como teto. (829 Words) - By Tiago, Erivaldo, José Henrique, Marcos, Rosângela, Izequiel, Anderson, Alexandro, Leandro e Celso

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Jornal Boca de Rua_Hotel mil estrelas 1

 Photo courtesy of Boca de Rua

Teto não é casa e casa não é lar. Lar é onde a gente se sente bem, se sente protegido. Por isso, não pense que morador de rua não tem lar. Pode não ter casa, mas tem lar. Sobre as nossas cabeças existe um teto, sim. Um teto natural onde brilham o sol e a lua e as estrelas. É um hotel mil estrelas.

Infelizmente também tem poluição. No nosso teto - o céu - tem uma nuvem de poluição que vem dos carros, das fábricas, da cidade. Dizem que o morador de rua suja a cidade, mas ninguém percebe que a cidade suja o morador de rua. Nossa pele tem uma camada preta grudada que não sai só com água e sabão. Tem que esfregar muito.

Como nossa casa não tem parede, se pode dizer que as portas estão sempre abertas. As quatro estações do ano passam por lá, às vezes numa única semana. Mesmo sem tijolos nem tábuas, temos sala, cozinha, banheiro, quarto. Os sofás são caixotes, o fogão tijolos empilhados, as panelas são latas. Claro que quando chove, faz muito frio ou sol daqueles de arder, tem que ir para baixo das abas, dos viadutos, das pontes, das árvores. É assim que as pessoas que não têm casa se abrigam, porque mesmo conseguindo uma lona, não deixam armar uma barraca nem nos terrenos baldios. Para se protegerem da violência, os sem-teto quase sempre vivem em grupos.

Tribalistas

É muito comum dizer que quem mora na rua rompeu o vínculo familiar. Mas o que é uma família? Nem sempre a família de sangue é a melhor. Para nós, a família real é a família da rua. Os irmãos, os pais e os filhos são os amigos. É como uma tribo: cada um tem a sua tarefa e quase tudo é dividido. Um se encarrega de buscar água, outros de cozinhar, outros de catar lenha para o fogo.

Para dormir as pessoas procuram um colchão e cobertas, mas quando não encontram, sobra o papelão. O mais difícil é o sexo e as necessidades fisiológicas. Quando a sociedade tira o direito de uma pessoa ter sua casa, tira também o direito à privacidade.

É revoltante quando chega a guarda municipal ou a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) com a Brigada e tiram tudo o que a pessoa tem. Eles "limpam" o local. E tem uns que ainda debocham: "Pega opara-queda porque o avião caiu"

A família Água Verde

Água Verde é um lago artificial da cidade. Um lugar bonito, bem no meio de uma avenida. Tem muita grama, espaço e alguma privacidade. Por isso um grupo de pessoas que vive nas ruas escolheu este lugar para construir o seu lar.

Cozinha

Erivaldo, o cozinheiro, improvisa uma mesinha com tábua e tijolos. Antes, outros integrantes da família passaram pelas fruteiras para pegar as doações ou reuniram dinheiro entre todos (conseguido com o trabalho de vender jornais, catar papel ou guardar carros) para comprar o que é preciso para a comida coletiva. Tiago se encarrega do fogo. Junta gravetos e arma o fogão com tijolos e uma chapa de ferro de fogão velho jogado fora.

Água

Os membros da família Água Verde se revezam para trazer água da torneira mais próxima em uma bambona ou em garrafas pet. Tem alguns locais que recusam, mas outros facilitam, como um posto de gasolina próximo. Sempre vão duas ou três pessoas, porque é preciso bastante água para a comida e para a higiene.

Banheiro

Tem um lugar para o banho e outro onde se faz as necessidades. Este é mais escondido, fica debaixo da ponte. O banho é de balde, mas não se usa a água do laguinho, que é muito suja. É preciso pegar na torneira mais próxima, como se faz para a comida. Em respeito à população, ninguém se banha pelado. Sempre de bermuda.

Quarto

O quarto coletivo é armado do outro lado da rua. As camas são feitas de colchão e cobertas (doados ou achado no lixo) ou só papelão. Tem gente que até enfeita o quarto com um quadro jogado fora, por exemplo. O quarto é armado e desarmado todos os dias de tardezinha. Guardam fora do olhar da sociedade (em cima de um abrigo de parada de ônibus ou num cantinho escondido) para não queimar o filme.  No pilar da marquise foi colocado um caco de espelho que serve para se pentear e fazer a barba.

Bíblia

Erivaldo lê a Bíblia quase todas as noites em voz alta. As pessoas gostam porque acalma. O sono fica mais tranqüilo.

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